Capítulo 2 - Lugar Seguro

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Depois disso comecei a ter medo de um novo ataque acontecer, então evitava tudo o que pudesse me fazer perder o controle. Dormir tornou-se difícil, eu tinha medo de nunca mais acordar. Comecei a perder o interesse pela comida e por sair com meus amigos. Até ir trabalhar me deixava suando frio e tremendo e logo me tornei distraída e menos eficiente. Tive que faltar algumas vezes, com medo de sair de casa e ter um ataque no meio da rua.

Eu temia perder o controle quando estivesse sozinha e ninguém poderia me ajudar. Os lugares em que eu já tinha tido uma crise ficavam marcados e eu tinha medo de voltar neles e a cena se repetir. Eu estava com medo de ter medo. Até que cheguei para trabalhar um dia, depois de ter faltado duas vezes seguidas, meu chefe veio direto em falar comigo com a notícia de que eu já não poderia trabalhar mais lá. É claro que na época eu não sabia que estava doente e por tanto não reclamei meus direitos.

O mês seguinte à minha demissão se resumiu a inúmeras idas a diferentes especialistas. Minha mãe estava convencida de que um deles descobriria o que eu tinha. Mas tudo o que descobri com isso foi que eu não poderia estar mais saudável fisicamente. No entanto minha mãe não desistiu, até que um dia, há quatro meses, estávamos no consultório do Dr. Alberto, médico de nossa família, com o resultado de todos os meus exames em sua mesa. Ele olhou solenemente pra mim através de seus óculos meia lua, com um olhar que sempre me transmitiu tranquilidade e disse:

- Sara, seu problema é psicológico.

Senti meu sangue gelar e rapidamente desviei o olhar pra minha mãe, que encarava perplexa o médico.

- Como assim doutor? – indagou minha mãe.

- Pela descrição dos sintomas estou quase certo de que Sara tenha desenvolvido Síndrome do Pânico.

A Síndrome do Pânico, como o médico nos explicou, é uma doença silenciosa, um transtorno de ansiedade no qual ocorrem essas crises de medo desesperado, a pessoa acha que está morrendo mesmo que não tenha motivo aparente pra isso e ela vem do nada. Normalmente ocorre entre pessoas no fim da adolescência e no inicio da fase adulta, acho que me encaixo bem na descrição já que tenho dezenove anos. Não há uma cura, a pessoa que desenvolve a síndrome tem de conviver com ela pelo resto da vida, fazendo tratamento e aprendendo a lidar com o medo. As crises acontecem de repente, não há nada de específico que possa desencadeá-las, mas por experiência própria acabei descobrindo que pensar nas crises anteriores poderia contribuir para iniciar novas.

- Sara? – volto à realidade de supetão.

- Ahn... Quando vai ser o... Velório? – pergunto hesitante, sem ter plena certeza de que posso lidar com isso.

- Amanhã, às 11 horas. Você vai? – pergunta Bianca devagar. Ela é a única pessoa de fora da minha família que sabe sobre a síndrome. Pelo seu tom de voz posso até imaginar ela enrolando nervosamente um de seus cachos escuros enquanto franze a testa.

- Não sei. Vou tentar, mas preciso ir agora... A gente se fala depois.

-Ok. Fique bem e se precisar me ligue e eu vou correndo!

- Obrigada. – desligo o telefone e o coloco na base, com um leve sorriso no rosto. Bianca está lidando com meu estado de saúde melhor do que eu imaginava, sem fazer muitas perguntas. Ela sempre foi uma pessoa pé no chão, sempre independente e aventureira, algumas vezes eu secretamente desejo ser mais igual a ela, sem medo de nada. Suspiro diante desse pensamento e vou tomar banho.

Mais tarde sento-me diante do computador, cumprindo minha rotina diária de dar uma olhada no site de empregos, embora eu nunca ache nada além de telemarketing ou recepcionista. Dois dias por semana tenho também uma consulta com minha psicóloga, doutora Júlia, que é sempre muito otimista. Esses dias monótonos e vazios não ajudam em nada meu estado psicológico. A doutora sempre me diz que eu devia sair e fazer um exercício físico, talvez uma caminhada. Mas estou muito desanimada pra sair, já era um esforço enorme quando tenho alguma entrevista de trabalho e preciso me afastar muito de casa. Minha casa é um lugar seguro, onde eu não perco tanto a cabeça.

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Nota da autora: na verdade essa seria a continuação do capítulo um. Mas como ficou curto ainda essa semana vou postar mais um capítulo! Talvez na sexta!

Me digam o que estão achando até aqui?

beeijos!!

Problemática Mente (amostra)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora