Prólogo

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Prólogo

Dezembro de 1815

Início do verão, Vila de São Jorge,

Casa Wynnkhan, Província da Serra.

Chovia torrencialmente, há dois longos dias.

A noite estava muito fria para a época do ano, fazendo com que um vento gelado e cortante, persuadisse as frestas das janelas a deixá-lo entrar, enregelando todo o ambiente, tornando-o pesado e mórbido, precisamente como convinha a noite.

Anthonny St. Vincent, o marquês de Wynnkhan tomava o segundo cálice de conhaque, enquanto aguardava uma posição mais objetiva, do Dr. Beneth, quanto à saúde de sua esposa, a marquesa Sylwian.

Há dois anos, uma segunda dose, não seria degustada, muito menos apreciada, mas sim, devorada rapidamente; época em que Anthonny imolava a vida no fundo de uma garrafa.

Como sua vida mudara, nesses quase dois anos. Quanta responsabilidade tomou pra si e de quanta coisa foi obrigado a abrir mão, em nome da família e continuaria a fazê-lo, com certeza por que verdadeiramente, não se incomodou muito, pelo contrário, até o satisfez.

Lady Sylwian Rupert, filha do visconde Rupert, foi a beldade mais aclamada da temporada. Para ser mais precisa sua quarta temporada. No alto dos seus vinte e um anos; encontrava-se mais experiente e mais sagaz também, a ponto de saber manipular a nobreza com uma precisão milimétrica. Era a mais invejada pelas debutantes. A mais imitada. Todas elas queriam ser Lady Sylwian. Seu estilo foi duramente copiado: de vestidos a chapéus; de sombrinhas a luvas. Nada do que usasse, era ignorado. Seu comportamento era visto como o mais correto. Sua reputação, a mais ilibada.

Contudo, mostraria os dentes de víbora, muito rapidamente.

Lady Honoria, a Marquesa Viúva, em seu desespero por se desfazer daquilo que ela denominava como a mórbida situação do filho, algo que muito a envergonhava e constrangia; fazendo-se valer, de uma vez, da sua posição como matriarca da família; conseguiu facilmente atrair a atenção e o interesse da beldade. Escolha óbvia da Marquesa que, em toda sua arrogância e prepotência, não percebeu que ela era a manipulada e não o contrário. Visto que a soberba e a ignorância, caminhavam de mãos dadas. No afã e na pressa de finalmente vingar-se de Mary Anne, colocando uma víbora, dentro de sua casa, ela acreditou, erroneamente, que dominava todas as peças deste jogo.

St. Vincent, pouco tempo depois de perder o pai, o marquês de Wynnkhan, e vendo-se tão sem propósitos na vida, resolveu por aventurar-se na luta contra o terror partindo numa viagem mar adentro, em direção a Península para juntar-se aos amigos e nobres, na luta do bem contra o mal. Naquela época, morrer seria um alívio para as dores que lhe corroíam a alma. Um ano depois, viu-se obrigado a retornar as suas terras, carregando, no corpo e na alma, as marcas da guerra.

Vendo-se oprimido pela Marquesa, mais uma vez, deixou-se manipular, confiando que, desta vez ela agiria preservando os interesses dele, aceitou contrair matrimônio, ainda nesta temporada, com uma noiva devidamente escolhida pela marquesa.

Anthonny vinha, há alguns anos, num processo de autodestruição, descontrolado. Seguia como um trem descarrilado, rumo à ruína total. Não era apenas no fundo de uma garrafa, que ele imolava sua vida, era também o Rei, em todos os bordéis; tanto nos bem, quanto nos mal afamados. A pressão que a Marquesa Viúva impunha, para que se casasse rapidamente, e agarrasse nas mãos, as rédeas e a responsabilidade da família, fizeram-no tomar a atitude mais errada de sua vida.

Mesmo sendo esta, a atitude mais errada, com certeza Anthonny não mudaria nem um milímetro; nem uma vírgula, de todas as ações que tomou, desde então. Pois fora a partir deste desastre, que a vida dele, começou a entrar nos eixos e tomar um rumo. A partir daí, que enxergou um novo propósito, e teve pelo que lutar.

A época, ele sequer imaginava tudo pelo que passaria muito menos a tempestade que estava resguardada, apenas esperando o momento certo para submergir e abrangê-lo inteiramente, como uma tormenta, que deixa destruição e estragos pelo caminho, levando um tempo indeterminado, para a reconstrução. Contudo no final, quando o sol resurge no horizonte, traz não só a esperança de dias felizes, mas o crescimento pessoal que se adquire através das adversidades enfrentadas, dando a felicidade um sabor todo especial e um colorido mágico.

Se hoje se sente um homem plenamente realizado e feliz, prestes a saborear as experiências mais emocionantes, que algum dia pôde sonhar; tem muito a creditar as ações tomadas a partir da noite de núpcias, quando finalmente entendeu, numa fração de segundos, que se não tomasse a frente dos acontecimentos e dominasse a situação, seria ele o dominado estando irremediavelmente perdido, arrastando junto a si, pessoas queridas, que muito sofreriam com os respingos da lama que queria, a todo custo, afogá-lo.

Conseguiu manter-se a margem, dominando o jogo, atuando como um excelente estrategista, frio e calculista, nos momentos precisos, não permitindo envolver-se emocionalmente, além de neutralizar e isolar as víboras, que se acreditaram dominantes no jogo, mas se viram completamente dominadas pela perícia, astúcia e força dele, ocultas propositadamente, por longo tempo.

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