Capítulo 21.

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Sem você, eu me sinto rasgado.

- Leo! Achei que algo tinha acontecido contigo! – Magda exclama e me abraça assim que entro em casa. Cansado, cambaleio com seu peso. – Por que não avisou que estava vivo? Mamãe está surtando!

- Acabou a bateria do meu celular. – murmuro, esfregando os olhos com a mão livre, enquanto a outra segura o moletom que Lea me emprestou e os desenhos recebidos. Depois de Amber, outras crianças entregaram-me seus desenhos, dizendo que era um presente pelo meu primeiro dia na casa. Durante o percurso para casa, fiquei pensando em lugares onde poderia pendurá-los, ou até mesmo guarda-los. Mas olhar para os rabiscos me deixa com uma sensação de alegria plena, e acho que seria bom poder olhar para eles todos os dias.

- E não tem telefone por lá? – ela me dá um tapinha no braço.

- Deve ter... – suspiro, jogando o moletom no sofá e colocando os desenhos ao lado.

- O que é isso? – Magda pergunta, apontando para os papéis. Ela espera a minha permissão para pegá-los, e abre um sorriso assim que seus olhos caem sobre o primeiro. – Que fofo! – exclama, já olhando o outro. – Quem fez?

- As crianças da oficina. Foi o meu primeiro dia, e elas me deram como um presente. – narro os acontecimentos do dia para minha irmã, seus olhos brilhando de animação ao ouvir o que tenho a dizer, e ela ri alto quando conto sobre o ataque de tintas.

- Uau. Então alguém se divertiu hoje. – afirma, entregando-me os desenhos com cuidado.

- Sim. É um lugar ótimo. – não consigo esconder o sorriso que rasga meu rosto, e Magda me abraça, murmurando um "awn".

- Vai fazer muito bem pra você, Leo. Tenho certeza disso. – ela fala, sua voz abafada em contato com a minha camiseta. – Vai dar tudo certo desta vez. Tenho ainda mais certeza de que vai.

- Sabe... – me afasto dela, olhando em seus olhos, ambos lacrimejantes. Engulo o bolo que se forma em minha garganta e me forço a falar – Às vezes nem parece que você é a mais nova. – ela ri, balançando a cabeça. – É sério. Eu tenho dado tanto trabalho pra você e pra mamãe que...

- Leo. – Magda me interrompe, colocando as mãos geladas ao redor do meu rosto, impedindo-me de baixar a cabeça. – Você é o meu irmão. Meu irmãozinho, e não importa o que você faça, eu sempre estarei aqui, ok? No que você precisar, e até no que não precisar. Sempre, sempre, ok?

- Tudo bem. – respondo, engasgando com as lágrimas. Abraço minha irmã forte desta vez, enterrando o rosto em seus cabelos, soluçando. E é assim que mamãe nos vê quando entra pela porta.

- Mas o que é isso? – mamãe exclama, coloca sua bolsa e a cesta vazia no sofá e se junta a nós, seus braços nos apertando ainda mais. – O que aconteceu?

Magda se livra do abraço e enxuga os olhos com a manga da camisa, sorrindo.

- Comemorando o primeiro dia do Leo, mãe. – ela pega a cesta do sofá e segue para a cozinha. Papa Léguas surge do alto das escadas e vai atrás, esperando ganhar comida.

- E como foi? E esses olhinhos vermelhos, meu Deus? – mamãe passa a mão no meu rosto, os olhos um tanto preocupados. Olho para ela de verdade, percebendo as rugas ao redor dos lábios, denunciando o quanto sorriu nos últimos anos. Mas também vejo os vincos de preocupação em sua testa, o que faz com que eu me sinta culpado, pois aqueles vincos estão ali por minha causa. – Leo? – a voz de mamãe me tira do torpor, e eu pisco.

- Foi ótimo mãe. – mais uma vez, narro os acontecimentos do dia, deixando de fora apenas as partes em que era só eu e Alexandre. Mencioná-lo me parecia errado, como se eu fosse contar algum segredo, algo que era nosso para o mundo. E eu não queria fazer isso.

- Ah que bom, filho. – mamãe diz. – Agora vai tomar um banho que ainda tem tinta no seu cabelo. Olha isso! – mamãe puxa meus fios com carinho, fazendo cara feia. – E por que só tem tinta azul aqui? – ela para, sorri e faz um sinal para que eu vá tomar banho. – Vou preparar a janta, desça assim que terminar o banho, ok? Preciso falar com você e com sua irmã.

- Tudo bem. – respondo, vendo-a sumir na cozinha. Passo a mão nos cabelos e os puxo com cuidado, olhando os resquícios de tinta azul nos meus dedos. O banho mega-rápido que tomei na oficina não foi o suficiente para tirar toda a sujeira que havia grudado em meus cabelos e pele, mas achei a cor do azul curiosa. Um azul muito intenso, o mais intenso que eu já vira na vida. Lembro-me de David na mesma hora. Era o que ele havia dito a respeito dos meus olhos. E lembrar de David quando antes estava pensando em Alexandre faz com que eu me sinta culpado. Por que me sinto assim? Já faz um tempo desde que David e eu nos falamos pela última vez, e eu penso em mandar uma mensagem, para ver como as coisas estão. Mas não quero incomodar. E se ele estiver ocupado, e receber mensagens minhas seja a última coisa que queira? Aaargh!

Coloco o celular para carregar na tomada e tiro a camisa, jogando-a num canto no quarto. Tiro os tênis com os pés e os chuto longe, arrancando a calça jeans em seguida. Entro no banheiro e ligo o chuveiro, estendendo a mão para checar a temperatura da água. Satisfeito ao perceber que ela está do jeitinho que eu gosto, entro debaixo do jato, de cueca e meias, pouco me importando com elas. Fecho os olhos e abro a boca, deixando que a água entre e saia sem que eu precise fazer qualquer movimento para tal. Cansado e com as pernas tremendo, decido parar de desperdiçar água e pego o frasco de xampu.

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