Parte I

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Quando o português chegouDebaixo duma bruta chuvaVestiu o índioQue pena!Fosse uma manhã de solO índio tinha despidoO português

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Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.

Oswald de Andrade

Pikurura era o nome dele. Apenas um nome, mas foi o suficiente para todo tipo de chacota.

"Pika o quê?" "Piruka, que nome mais ordinário." "Um maldito índio na universidade." "Como isso aconteceu?" "Ele não passa do primeiro ano." "Esse povo tem dificuldades de raciocínio, não suportam atividades intelectuais do nosso nível." "Só pelo nome já será reprovado." "Índio bom é índio morto." Eram alguns comentários nos bastidores do curso de agronomia.

Pesava o fato do curso enfatizar técnicas de monocultura, havendo pouco interesse por temas que possuíam alguma ideologia indígena como agroecologia, agrofloresta, sintropia ou até mesmo desenvolvimento sustentável. De forma geral aprendia-se a ganhar o máximo lucro no menor tempo possível, com pouca variação de produtos e técnicas. "Exaurindo o solo e diminuindo vida." Concluía Pikurura nas conversas com alguns poucos colegas.

Além de uma tensão ideológica em termos de produção agropecuária havia também uma tensão racial, que era fortemente alimentada pelas feições impopulares de Pikurura. A pele de tonalidade acastanhada, a testa baixa, a falta de barba, os olhos oblíquos, o nariz achatado, a boca volumosa e a expressão pacífica, tudo contribuía para a não aceitação daquele rapaz. Como se não bastasse ainda existia outras peculiaridades físicas nele que geravam certo preconceito até mesmo entre os índios, pois sua estatura era mais baixa que o usual e seu cabelo possuía uma tonalidade avermelhada.

Naquele dia Pikurura acordou diferente, sentia-se febril e com tonturas. O sol ainda não tinha raiado e ele saiu da rede cambaleando.

— Dormiu na rede de novo Piku, vai pegar um resfriado — falou seu pai quando viu o garoto surgir na porta da cozinha.

— Eu prefiro, você sabe. Nem vento fez essa noite — mentiu, pois o vento havia sido intenso e aquele estado febril talvez fosse por esse motivo.

O pai resmungou algo e terminou de passar o café. O menino passou manteiga no pão e acrescentou à mortadela, o pai ficou apenas no café.

— Você nem precisava ter acordado tão cedo hoje.

— Claro que precisava, hoje vai ter uma palestra logo no primeiro horário, não posso faltar.

— Não por causa disso.

— Como assim?

— Acho que você não vai precisar caminhar até o ponto do ônibus — falou o pai sorrindo e coçando a volumosa barba.

Pikurura olhou desconfiado para o pai, abocanhou o último pedaço de pão e sorrindo levantou-se.

— Não, não pode ser. Verdade? Você conseguiu?

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