17- IDEOLOGIA

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Brasil, Floresta Amazônica, ano de 2011

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Brasil, Floresta Amazônica, ano de 2011. 

Primeiro foi necessário civilizar o homem em relação ao próprio homem. Agora é necessário civilizar o homem em relação à natureza e aos animais.

Victor Hugo



A lembrança que se seguirá foi transformadora, pois com ela recuperei as minúcias do ideal que me acompanha, que foi sendo moldado nessa imensa vida que relato em pedaços desconexos.

Algumas vezes, para organizar meus pensamentos, escalava uma velha e poderosa castanheira-do-Brasil (Bertholletia excelsa Bonpl.) e ficava a observar a floresta do alto. Para subir utilizava o equipamento de escalada de coleta de frutos e folhas, mas antes de tudo, com o arco, disparava uma flecha com um longo fio de nylon. Ela cruzava por um galho forte e então todo o equipamento podia ser puxado. Como eu havia previsto fui um ótimo arqueiro. A árvore ficava próxima ao Rio dos Desejos, o mesmo em que ficava a cachoeira que saltávamos. A vista era esplendorosa e meus pensamentos fluíam como os rios para o mar.

Fazia dois anos que tivera meu encontro com aquele estranho homem. Havia muitas informações novas em minha mente. Ouvia na televisão notícias que já sabia que ocorreriam. Sabia dados e detalhes científicos de muita coisa ainda não descoberta e tudo fazia sentido. Sentia enxaquecas horríveis, insônias corriqueiras, era difícil administrar aquela carga em meu cérebro.

Algumas informações não entendia por completo, pois eram de áreas da ciência em que eu tinha pouco domínio, como a física quântica, matemática avançada ou mesmo a robótica. Mas poderia passar as informações para alguém mais entendido e garanto que ficariam surpresos. Algumas informações, todavia, falhavam. Elaborei estatísticas para verificar o que estava guardado em meu cérebro. Verifiquei que cerca de 10% de acontecimentos que sabia que deveriam acontecer, não se concretizavam. Cogitei como explicação para essas falhas a chamada teoria do caos, que diz que mesmo pequenas alterações em um sistema podem ocasionar modificações absurdas com o passar do tempo. Acho que a vinda de Hugh Everett e seu contato comigo mexeram no futuro e por isso nem todas minhas informações eram válidas.

Tudo ainda era segredo. Ainda não tínhamos fundado nossa instituição, tudo estava sendo planejado. Era isso que recordava agora. As peças começavam a se encaixar. Eu trazia na mente um poder grandioso. Precisava de cautela e muita reflexão. Para mudar o mundo precisei de planejamento.

Minha ideia básica de um mundo melhor compreendia o que se chama de sustentabilidade. Não o pensamento simplista e de marketing que invadiu o mundo, mas sim o conceito de sustentabilidade em constante desenvolvimento, onde se é necessário entender como conseguir que a humanidade prossiga, sem sofrimentos, por falta ou má distribuição de seus recursos naturais. O conceito tinha muitas utopias, pois se tratava de um sonho de equilíbrio e isso era utilizado como crítica a ideologia. Eu sempre achei que o que é utópico não deveria ser execrado e sim buscado. Aliás, grandes pensadores sempre exaltaram a utopia. Como dissera o escritor uruguaio Eduardo Galeano "a utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". Com minhas informações sabia que podia caminhar e chegar bem perto desse horizonte.

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