Legítima defesa

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Quando pai e filho entraram pela porta da escola, com cara de poucos amigos, a curiosidade se instalou entre os funcionários. Aquele era o garoto que havia gazeado aula pela manhã. Aquele era o pai que tinha recebido um telefonema da coordenadora, avisando-lhe do fato. Entraram meio tímidos. Foram recebidos na secretaria, pela coordenação. O pai, diferente de tantos outros pais que visitam a escola, não apoiava as atitudes do filho, nem tentava jogar a culpa nos funcionários.

Com os olhos avermelhados, o pai estendeu a mão em direção da coordenadora. Havia sangue em meio a marcas de unhadas.

"Olha aqui o que meu filho fez", foi tudo o que conseguiu dizer.

"Eu estava apenas me defendendo", justificou o garoto.

"Se defendendo de quê?", quis saber a coordenadora.

"Disso" e mostrou a perna cheinha de vergões avermelhados.

"O que foi isso?", admirou-se a diretora, olhando primeiramente para o filho e logo depois para o pai.

O garoto abaixou os olhos. O pai desviou o rosto. Ninguém queria falar sobre o assunto.

"Vamos, me diz. O que foi isso?"

O garoto levantou o olhar meio de lado, torceu os lábios e soltou:

"Ele me bateu com fio elétrico."

O pai não negou. Não disse nada. Tinha o olhar longe, disperso.

"Vem comigo", chamou a diretora, "vamos conversar na minha sala".

O garoto, sem muita escolha, foi com a diretora até a sala dela, enquanto a coordenadora conversava com o pai separadamente.

"Me conta. O que foi que aconteceu?"

Com as mãos sobre os joelhos, o garoto correu os olhos ao redor da sala, como se estivesse procurando alguma coisa. Não disse nada.

"E aí?", insistiu a diretora, "Vai me contar?"

Os olhos do garoto encontraram os dela.

"Eu cheguei em casa, e ele já sabia que eu tinha matado aula." Suspirou. "Veio tirar satisfação comigo – e eu não podia deixar baixo."

A diretora ponderou.

"Mas quem começou?"

"O quê?"

"A agressão física."

Faíscas saíam dos seus olhos.

"Ele, né?! Ele catou um fio elétrico que tinha no quintal e me bateu. Daí eu fui pra cima dele. Eu não sou mais criança. Ele não vai mais fazer isso comigo."

"Que tipo de fio elétrico era?"

"Como assim?"

"Era um fio elétrico desses de construção?"

O garoto negou com a cabeça.

"Era um fio tirado de eletrodoméstico?"

"Era o fio do ferro elétrico, um ferro velho que ele não usa mais."

A diretoria suspirou. Não sabia o que dizer. Em casos de violência doméstica contra crianças e adolescentes, a lei previa que ela não poderia se calar, não poderia ser conivente. Observou o garoto à sua frente, que esticou a mão e começou a girar o globo que ela tinha em cima da mesa.

"Você tem algum sonho, garoto?"

"Como assim?", ele despertou.

"Se você pudesse ter qualquer coisa nesse momento, o que você gostaria?"

"Dinheiro", respondeu ele, sem hesitar.

"Mas o que você faria com esse dinheiro?"

O garoto desviou os olhos, comprimiu os lábios, mas não disse uma palavra.

"Você queria viajar?", perguntou a diretora, apontando o globo.

"Não. Queria ter dinheiro. Só."

"Mas dinheiro, só dinheiro, não é nada. Você precisa fazer alguma coisa com esse dinheiro." Ela o encarava fixamente. "Você tem contas pra pagar?"

"Não muitas."

O histórico da família já era conhecido. O pai criava o filho de 15 anos sozinho, desde que a mãe havia ido embora, há seis anos. O garoto pouco convivia com ela, já que ela tinha um novo marido, que não fazia questão alguma de ter contato com ele. Até onde a escola sabia, nunca tinha faltado-lhe nada: nem material, nem afetivo. Mas as marcas vermelhas na perna do garoto pareciam destruir a imagem de bom homem que o pai levara tanto tempo construindo.

Quando o homem e o garoto se foram, a diretora sentou-se com a coordenadora para avaliar a situação.

"O pai disse que foi cobrar do menino a questão de gazear as aulas e que o filho partiu pra cima dele. Só então ele pegou alguma coisa pra se defender."

"Mas um fio elétrico, Luíza? Não podia ser uma cinta, um chinelo? Tinha que ser um fio elétrico? Você viu as marcas?"

"Vai saber o que aconteceu lá. Você viu o sangue nas mãos do homem, Mariângela. O menino fez aquilo com as próprias unhas."

"Uma atitude desesperada, talvez?"

"Não sei. Acho que tem muito caroço nesse angu."

Como não chegaram a nenhuma conclusão, a diretora optou por esperar. Não poderia denunciar o homem ao conselho tutelar sem ter provas de que ele tinha agido com excesso. Não queria ser injusta. Pelo menos por hora, era melhor que se deixasse o caso como estava.

Na semana que se seguiu, o garoto não apareceu na escola. A coordenadora tentou contato com o pai algumas vezes durante a semana, sem sucesso. Com a correria do dia-a-dia, a questão começou a ser esquecida.

Na segunda-feira, quando a diretora chegava ao portão do colégio, viu o garoto na esquina. Junto dele, um homem vestindo um moletom com capuz. Ela parou o carro, olhou no relógio: já se iam mais de quarenta minutos do início da aula e o garoto ali, do lado de fora. Ela desceu do carro para abrir o portão. Quando o carro entrou no estacionamento, ela mais uma vez olhou para o lado. O garoto estava indo embora com o homem de moletom.

Dentro da escola, mesmo com receio de que o pai se tornasse, mais uma vez, violento, ela pediu que alguém telefonasse para a casa do garoto. Aquilo não poderia continuar daquele jeito, o garoto não poderia continuar gazeando aulas pelas ruas. Se o pai realmente estava agredindo o filho, o conselho tutelar precisava intervir.

Vários telefonemas foram dados pela coordenadora. Nem sinal do pai, nem em casa, nem no celular, nem nesse dia, nem nos dois dias que seguiram. O garoto não vinha mais para a escola, o pai não atendia ao telefone.

No terceiro dia, ao abrir o jornal na secretaria, a coordenadora quase caiu dura. Estampada na sessão policial, uma fotografia mostrava o garoto, caído em meio a uma série de objetos quebrados, com uma mancha escura no meio do peito da camiseta. Morto por dívida de drogas, dizia a legenda.

Ao receber o jornal das mãos da coordenadora, a diretora sentiu um nó seco embolando dentro do estômago. Mais tarde, a notícia que ouviu dos alunos, vizinhos do garoto, piorava ainda mais a situação: o pai, ao chegar em casa e se deparar com aquela cena, com o filho imóvel no chão da sala destruída, não conseguiu conter a decepção: lançou mão de um fio elétrico – provavelmente o mesmo fio que tinha usado para tentar conter a ira do filho – e enforcou-se no cano do chuveiro.

Mais tarde, no vaso sanitário da escola, a diretora vomitaria a culpa que sentia.

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