16- SEGUINDO NOVOS RUMOS

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  Brasil, Alto Parnaíba, Maranhão, ano de 1994.  

Andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos.

Clarice Lispector


A viagem por minhas memórias prosseguiu fervilhante. Na transição entre lembranças sentia uma consciência maior sobre toda a situação. Inevitáveis perguntas me afligiam. Como poderia ter vivido tanto tempo? Como poderia ter vivido em um passado tão distante do ano de 2333? Posso dizer que vocês terão as respostas, mas é importante seguirmos vendo as pedras do caminho.

De repente me vi com onze anos na sala da paróquia de Alto Parnaíba, me despedindo de meu grande amigo Douglas. Após a morte de minha avó, ele me acolheu. Tornei-me interno no orfanato que ele gerenciava. Vivi dois anos de forma reclusa. Só encontrava consolo nos livros. Sempre tive paixão por leitura, mas naqueles anos era quase obsessão. Apenas o entendimento dos mistérios do mundo faria a dor de minhas perdas sumirem. Além disso, assentia-me na obrigação de continuar a ser o orgulho da minha avó, precisava ser o gênio que ela achava que eu era. Pensava comigo mesmo: o sentido da vida é compreender a natureza.

A despedida tinha um bom motivo. Havia sido adotado. Um verdadeiro milagre, pois adolescentes negros estão longe de ser o desejo de adoção da maioria dos casais. Porém, aquele casal era diferente. Pessoas que vieram em meu socorro trazidas pelo acaso.

Entrei na sala de Douglas e me sentei em frente sua mesa. Ele me olhou com o carinho de sempre e disse:

— Eu te falei meu amigo. Deus escreve certo por linhas tortas.

— Você acha mesmo que isso é destino? Que tá tudo escrito?

— Eu não sei Bruno. Ninguém sabe. Falo isso pra que não perca sua fé, pois tenho certeza que é importante ter fé. Esperança em um futuro bom, ninguém vive bem sem isso. Conte-me mais sobre seus novos pais.

— Sou oficialmente filho deles — não consegui segurar meu sorriso de satisfação — Estamos nos dando bem e a escola que irei estudar é ótima.

— O que eles fazem?

— Ela é médica e ele empresário. Estou em outro mundo. São Alemães, mas falam bem o português. É clichê dizer isso, mas sinto que tenho futuro, mais oportunidades e gente que gosta de mim — quase não completei a frase, estava em um momento emotivo e tive que esconder com as mãos meu rosto emocionado.

Douglas não conseguia esconder a admiração que sentia por mim. Ele considerava meu linguajar e pensamentos avançados para uma criança de onze anos. Era um padre conceituado. Para conseguir seu título passou por mais de quinze anos de estudos e experiências religiosas. Muita filosofia inclusive. Vinha de uma congregação rigorosa e que celebrava a reflexão. Escolheu viver em Alto Paranaíba, pois sabia que era um município pobre e necessitado de religiosos sérios.

— Deus não te dará mais cargas do que pode carregar. Você terá uma bela vida — falou com o olhar brilhando.

— Padre, eu vejo muita coisa ruim no mundo. Muita gente honesta e boa sofrendo. Isso é justo? A religião não explica e parece querer simplificar todos os mistérios do universo.

— Siga seu caminho e dará tudo certo. Não queira resolver todos os problemas do mundo. Deixe isso para Deus. Sem o mal não existe o bem, ambos precisam existir. Certas respostas ninguém tem. Posso te confessar que de muitas formas duvido das religiões também, elas acabam querendo ser o fim e não o meio. Achei meu caminho na igreja, pois entendo que assim posso fazer algo bom. Descubra o seu caminho.

— Eu quero saber, conhecer. Percebo isso melhor agora. Meus novos pais me mostraram isso. Eu sinto um grande vazio por não saber por que temos de sofrer, por que existimos? Quais os motivos da minha existência? Da nossa existência? De onde vêm as estrelas? Do que é feito o amor? Por que o mundo existe? Deus existe mesmo?

— Bruno busque as respostas. Isso deve ser a sua estrada. Como diria sua vó, você é genial. Essa sua vontade de conhecimento não deve ser apenas acaso.

— Acho que a questão não é a existência de Deus, mas sim entender os motivos de Deus. Não entendemos a nós mesmos, imagina entender tudo. Porém, muitas perguntas me atormentam. Queria ter conhecimento para entender. Queria poder mudar o mundo.

— Não se aflija, meu filho. No evangelho apócrifo de Tomé Jesus diz: "Deus está dentro de você e ao seu redor e não em castelos de pedra ou em mansões de madeira. Levante uma pedra e encontrará Deus. Quebre um pedaço de madeira e Ele estará ali. Quem souber o significado dessas palavras jamais conhecerá a morte". Acredito que sua busca por respostas no fim é a mesma busca que a minha. Ambos buscamos Deus. Ele está na sua busca. Está na natureza. Só tome cuidado, pois você pode se perder no caminho e ao invés de querer conhecer Deus pode querer ser Deus. Tomás de Aquino há muito tempo já chamava a atenção de que: "o desordenado amor por si mesmo é a causa de todos os pecados". Ame o equilíbrio e não se perca.

Concordei e, após, nos abraçamos. Então segui para encontrar o casal Waldmann, eles me esperavam, pois a viajem até Curitiba seria longa.   

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