Capítulo Um

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            O cheiro era de fumaça de charuto barato e sangue. Cheiro de morte, na verdade. Aquele odor que penetra suas narinas, embriagando sua mente com morbidez e escuridão; além de um silêncio agonizante, como se fosse possível sentir a alma se desprendendo do corpo e subindo para o paraíso. Isso, claro, se fosse uma alma merecedora. Pois ele conhecia muitos que mereciam menos do que o fogo do inferno. Muitos, como o responsável por aquela atrocidade.

            Não era uma mulher; tampouco uma menina. Estava na casa dos dezoito, dezenove anos, como ele conseguia supor pela compleição delicada e a pele sem rugas ou marcas de expressão. Deveria ter sido bela, antes que sua face se tornasse pálida e fosse marcada por cortes profundos e hematomas; antes que seu corpo estivesse banhado em sangue em um espetáculo de horrores. A julgar pelas belas joias que usava, tratava-se de uma jovem da alta sociedade. Tinha toda a vida pela frente, com certeza estava prestes a ser oferecida em casamento a algum homem importante, mas agora era apenas um cadáver, como tantos outros com os quais ele lidava.

            Jogada por cima de uma mesa de carteado, sem a menor dignidade, trajando um vestido que não parecia nem ser dela de tão largo que estava, encontrava-se completamente deslocada naquele ambiente; o que fazia Lestrange pensar que tinha sido levada até ali depois de morta.

            Um calafrio percorreu sua espinha ao pensar em Maryanne. Todas as vezes que se deparava com um caso como aquele, tão terrível, em que uma pessoa tão jovem perdia a vida pelas mãos de um assassino impiedoso, temia pela filha. Desde que sua esposa morrera, em circunstâncias raramente mencionadas, ela se tornara o centro do seu mundo. A dor de chegar a casa e não vê-la sentada em sua poltrona preferida, lendo um romance, ou de não poder discutir sobre assuntos não muito apropriados para uma dama, era deveras cruel; tanto que sua vontade era trancá-la em casa e protegê-la de sua teimosia e de sua predileção pelo oculto, por mistérios inexplicáveis. Não podia julgá-la, pois fora exatamente igual a ela quando se referia aos casos que seu próprio pai investigara na polícia, muitos anos atrás. Maryanne sempre queria ajudar; mas até quando se conformaria em ser uma mera coadjuvante? Especialmente daquela vez, quando visse que a vítima era uma de suas amigas mais íntimas, que ele tinha acabado de reconhecer.

            Joseph Lestrange estava fazendo um grande esforço para lembrar o nome daquela moça, uma vez que Maryanne tinha várias amigas, mas reconhecia seu rosto e conseguia imaginar o quanto sua menina iria sofrer com aquela perda. E ela já tivera perdas demais na vida, mais do que merecia.

            — Inspetor... pode vir aqui um minuto? — um policial jovem e um pouco franzino demais para a profissão o chamou.

            Assim que ouviu o chamado, Joseph sorriu de forma um pouco desanimada. Já não era inspetor de polícia há uns cinco anos, mas as pessoas insistiam em nomeá-lo assim. Ele abandonou a delegacia e se tornou detetive particular; o que foi uma bênção e um grande problema ao mesmo tempo. Sua vida se tornara mais calma e passara a ganhar bem mais dinheiro, porém, despertara a paixão pela investigação em Maryanne. Bem, ela teria que seguir seu caminho e rezar para que seu futuro marido fosse tão aventureiro quanto ela para permitir tal coisa.

            Depois de caminhar até o rapaz, Joseph agachou-se ao lado dele para observar o que este mostrava. Tratava-se de um papel, cuidadosamente dobrado, amarrado com um laço de fita vermelho escarlate, da exata cor do sangue que escapava pelas várias feridas no corpo da jovem. Calçando uma luva de couro, Joseph pegou o delicado objeto nas mãos e o abriu, revelando uma caligrafia precisa e muito elaborada, que deveria, sem dúvida, pertencer a algum letrado muito culto; um homem da alta classe da cidade onde viviam, Sorenhill.

            A mensagem era igualmente intrigante. Era o trecho de uma poesia de Edgar Allan Poe, um dos escritores favoritos, tanto dele quanto de Maryanne. Talvez fosse a tendência ao obscuro que os encantava, já que eles também gostavam de tudo que se afastava do convencional. Ao ler a breve citação, ele quase conseguiu recitá-la de cor:

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