Capítulo 15

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Foi inevitável.

Todos os jornais e revistas de fofocas estavam com a seguinte manchete:

DE BANDIDO A BOM MOÇO: conheça a trajetória do jogador Ricardo Ferreira no Corinthians

Um artigo falando sobre a sua prisão, mas sem grandes informações, como o porquê dele ter sido preso e quando. Mas o grande problema era que eu ou a Ana seríamos acusadas de vazar essa informação, já que prometemos que tudo que foi dito no Jogo do Nunca não seria divulgado e agora a maior revelação da nossa brincadeira estava na primeira página.

- Não fui eu! – Ana apareceu na minha mesa com uma cara assustada.

- Eu sei que não foi. – Coloquei meus dedos na testa pensando em como eu resolveria isso.

Meu celular tocou. Era um número desconhecido. Pedi licença a Ana e atendi.

- Alô?

- Foi você Clara? – Era o Ricardo.

- Você acha que fui eu? – Isso me tirou do sério!

- Sinceramente? Sim. Você quis se vingar por causa do lance da Sheila. – Ele não estava gritando, mas falou com uma raiva que parece que passou pra mim via telefone.

- Seu idiota! – E desliguei na cara dele tentando segurar algumas lágrimas de raiva. Ricardo é um completo idiota!

Ana veio para o meu lado e afagou meus cabelos.

- Idiota mesmo, né? O jeito é ignorar o Ricardo, ele deve tá com a cabeça cheia e pensou em você porque é a única pessoa na mente dele. – Ana me lançou um olhar malicioso e um risinho mas eu não estava no clima de dar risada.

- Não brinca Ana! – Me desvencilhei da Ana que voltou pra sua mesa em silêncio. Tentei me despreocupar com a situação, tentei esquecer que o Ricardo achou mesmo que eu faria algum mal por causa de sábado.

Voltei ao meu trabalho. Estava arrumando a agenda de algumas equipes para essa semana, porque teria jogos da Libertadores em São Paulo e do Campeonato Paulista. Mas fui interrompida pelo André falando que Novaes estava me chamando no seu escritório.

- Boa tarde Clara!

- Boa tarde Novaes. – Ele apontou pra cadeira e me sentei.

- Hoje estou chamando alguns dos funcionários para resolver as pendências de férias e folgas. Você e o André são os mais prejudicados até agora, peço desculpas, mas tá uma loucura e acredito que você percebeu. – Será que finalmente teria minhas férias? – Ainda tá uma loucura, então na semana que vem você vai pegar dez dias de folga, quero primeiro zerar suas folgas pra poder dar seus trinta dias de férias, ok?

- Seria perfeito Novaes. – Isso quebraria meu galho, assim poderia ir pra Santos ficar com a minha mãe, finalmente. Só precisava falar com meus professores da faculdade por conta das faltas, mas nada que não possa ser resolvido na base de um xaveco.

- Mudando de assunto... Como foi o fim de semana? E que notícia é essa do Ricardo preso? – Novaes não perderia a chance de saber alguma coisa, não que ele fosse publicar outro artigo mais atualizado, até porque ele é naturalmente curioso.

- Ai Novaes, descobrimos isso numa brincadeira lá no sítio, mas não sabemos quem vazou a informação... Bem, o Ricardo sabe. – Tive total atenção de Novaes quando disse isso. – Ele acha que fui eu!

- Mas não foi. Ou foi? Foi? – Agora ele me olhava assustado.

- Não, mas bem que poderia ter sido, seria mais fácil assumir e o fazer acreditar que fui do que ao contrário. Que ódio. – Minha raiva pelo Ricardo estava de volta e Novaes percebeu e se levantou da sua poltrona e colocou uma mão no meu ombro e disse:

- Vá trabalhar que assim você não pensa nisso. – Concordei e realmente esperava que o trabalho me fizesse desligar desse pequeno problema que me afligia.

***

No dia seguinte, indo pra faculdade, fui abordada por alguns repórteres perguntando sobre a prisão de Ricardo, se eu sabia de alguma coisa, se eu estava no sítio, se estávamos namorando e como era namorar um cara com o passado fora da lei. Para fugir deles, peguei o primeiro ônibus que passou no ponto, nem sabia pra onde iria, mas só queria sair de perto deles sem ser incomodada por eles. Desci no terceiro ponto e não estava fora do meu caminho.

Chegando à faculdade encontrei com Juliana no portão. Nos cumprimentamos e ela nem citou o assunto "Ricardo" e era por isso que eu a amava tanto, ela sabia quando eu não queria falar sobre alguma coisa, ela não força, ela tem a paciência de Jó pra esperar a hora certa de eu me explicar sobre o ocorrido.

- Tenho que passar na sala dos professores, Ju. Peguei dez dias de folga e vou pra casa da minha mãe.

- Nossa! Finalmente você e folga juntos! – Tive que rir, finalmente mesmo. – Tudo bem, quer que eu te acompanhe?

- Não precisa, se você for de quem eu copiaria a matéria que estaria perdendo? – Então a Ju fui pra sala de aula e eu fui pra a sala dos professores.

Cinco dos meus sete professores ainda estavam lá e consegui falar com eles juntos. Expliquei que ficaria de folga e iria viajar pra casa da minha mãe. Perguntei se teria alguma possibilidade de eu ler os textos que seriam trabalhados nesses dias de acordo com o plano de aula, e resenhá-los, enviando para o e-mail de cada um deles. Todos concordaram e meu professor de Ética pediu pra que eu pegasse um atestado de recesso para ser entregue, nada muito oficial, só pra ter algum documento explicando minhas faltas. Mas estava tudo resolvido.

***

No intervalo eu e a Juliana saímos da sala para comprar uma barrinha de cereal, na máquina de guloseimas que fica no nosso andar, e escutamos uma discussão no corredor.

- Ah cala boca! – Era a Rafaela discutindo com um grupinho de estudantes de Engenharia com a camiseta do curso.

- Você também é outra puta, podem dar as mãos. – A garota mais alta da roda falou pra Rafaela. Eu e a Ju nos entreolhamos e caminhamos até o grupinho.

- Algum problema? – Perguntei.

- Chegou sua melhor amiga Rafaela. – Era a mais alta de novo. A Rafaela se virou e nos empurrou pelo ombro fora daquele grupo, que estavam rindo agora.

- O que aconteceu? – Juliana estava curiosa, assim como eu.

- Esses idiotas estavam falando mal da Clara. – Olhei pra ela e parei de andar. – E eu estava tentando explicar que você não é Maria chuteira e nem foi quem divulgou a prisão do Ricardo.

- Mas você me chama de Maria chuteira. – Disse pra Rafaela e a Juliana concordou.

- Chamava. Passado. – Seu olhar agora era de vergonha.

- Certo... – Juliana se afastou de nós, pois viu que seria uma conversa bem interessante e reveladora.

- Mas não precisava me defender Rafaela. Você não tem dívida nenhuma comigo.

- Dívida? – Ela começou a rir. – Não é questão de ter dívida ou não Clara. Eu tô do seu lado agora, falei merda de você e cara, somos mulheres, devemos ficar uma do lado da outra. Não vou ficar escutando chouriço sobre você e ficar calada, principalmente vindo de outra mulher. – Certo, oficialmente eu estava chocada, onde estava a antiga Rafaela?

Ela percebeu minha surpresa e ficou em silêncio um pouco, me deixando livre pra raciocinar.

- Olha, me desculpa Clara.

- Não tem o que se desculpar, vamos. – E fomos juntas para a sala de aula.

***

Estava tudo certo para a viagem até Santos, ou quase. Só precisava falar com o Raul sobre nosso futuro encontro. Liguei pra ele a noite explicando a minha situação de jornalista sem folga há tempos. Ele riu um pouco, mas não tive nenhum problema em combinar que iríamos sair juntos assim que eu voltasse da viagem. Aproveitei e liguei pra minha mãe contando a novidade, que semana que vem estaria na casa dela. Eu quase fiquei surda de tanto que ela gritou de animação.


"REVEJA FOTOS DO CASAL: Jornalista e Ricardo Ferreira ainda estariam juntos após revelação."

Com a bola toda - em revisãoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora