27 - A Linda Rosa

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- Quantas batatas você já comeu? – Escuto Pedro falando para mim e o seu semblante é de espanto.

- Algumas – digo depois de ter engolido com dificuldade o monte que havia enfiado em minha boca. – Por qual motivo você pergunta? – Lambo os dedos.

- Você realmente é de outro planeta. – Ele diz e pega a última batata do pacote. – Só acho que você deveria pensar nas outras pessoas do planeta.

- O que tem elas? – Pergunto.

- Bom, não elas. Eu realmente queria ter comido um pouco mais – ele diz raivoso. – Só por isso eu espero que você tenha uma baita dor de barriga, tipo ao extremo.

Estamos em sua casa e é a segunda vez que eu venho aqui. Na primeira vez havia sido na semana das férias do colégio e eu ainda estava muito mal pelo que havia acontecido comigo e com Rico, mas foi bom ter vindo aqui. Conheci a sua família, que me trataram super bem e eu descobri que a irmã de Pedro nada mais é do que a menina para a qual Narciso se declarou. Meu queixo quase foi ao chão quando eu observei Linda parada na minha frente. Quase engasguei com o ar, ela fazia jus ao seu nome e estava diferente, pois o seu cabelo se encontrava na cor rosa típica de algodão doce.

- Narciso se apaixonou pela sua irmã? – disse em seu ouvido.

- Você não sabia? – Ele parecia espantado.

- Ah, me dê um desconto, eu nem sabia que você existia nesse mundo. – Rebato mantendo o meu orgulho.

- É verdade – ele riu achando graça – eu sabia que você existia. – ele me olhou, mas percebi que ficou faltando algo a ser dito.

- Sabia? – Fico chocada.

- Sim, aquele elevador também sabia de sua existência.

Ele gargalha e eu lembro que nós nos falamos pela primeira vez devido ao meu modo indiscreto de olhar para os meus peitos.

Dou uma voadora nele e começo a fingir que o estrangulava. Ele continuou rindo.

Depois dessa minha pequena falta de maneiras em sua casa os seus pais já pensam que sou de casa e Linda não está muito a fim de conversar conosco e fica sempre trancada em seu quarto. Pelo que Pedro me disse, ela terminou com o namorado faz um tempo e ninguém sabe o motivo, nem o próprio cara compreende o que aconteceu.

- Isso ocorreu depois de um tempo que ela se matriculou no ballet.

- Até o cabelo rosa?

- Não, ela pintou no dia que começou com as aulas.

Conversar com Pedro estava me fazendo bem, era como se estivesse em uma outra realidade. Eu gostava disso.

No final do dia eu não fiquei com nenhuma dor de barriga, mesmo com toda a força no pensamento que Pedro colocou para que isso ocorresse, mas o meu estômago era forte para comer porcaria. Isso não é algo que uma pessoa pode se orgulhar e sempre vem o papo de ter que cuidar da saúde e afim. Fiz uma nota mental de que deveria começar a rever a minha alimentação, por mim e também por querer ser uma velha descolada que os jovens morrerão de inveja.

Pedro havia ido ao banheiro quando fui para a cozinha beber um pouco de água.

Percebo que Linda já estava lá há um bom tempo, porém ela não olhou para mim quando entrei.

- Linda? – Pergunto. Ela estava extremamente calada e aquilo me deixou apreensiva. Vou mais para perto dela e escuto-a fungar baixinho. – Ei, o que foi? – Faço a minha melhor voz de preocupada.

- Eu estraguei tudo. – Ela está com os olhos vermelhos e uma cachoeira está escorrendo de seus olhos, não sei como parar isso. – Por ser assim, deste jeito. Eu ferrei a amizade com Narciso, ferrei o meu namoro com Luciano – deve ser o nome do ex – e eu não sei o que fazer. Vão me julgar, vão me julgar tanto.

- Por que vão te julgar, Linda?

Ela balança a cabeça. Não quer me falar o que está acontecendo.

Pedro chega neste momento.

- Ei, o que foi? – Ele olha para ela por um momento e sinto uma conexão entre eles. – É aquele assunto? – Ela afirma e ele a abraça.

Esse era um lado de Pedro que eu nunca havia visto antes. Tudo bem que ele já foi compreensivo comigo várias vezes, porém olhar a sua empatia para com as outras pessoas me fez ver como ele era um cara legal. Fora as vezes que ele tirava sarro de mim ou agia de forma irritante.

Eu já sabia que havia chegado a hora de ir embora. Então Pedro me deixou no portão e nós nos despedimos para que ele fosse cuidar de sua irmã.

Quando chego em casa eu vejo que há uma mensagem em meu celular de Rico.

Iria fazer quase 23 dias daquele fatídico dia em que eu terminei despejando tudo o que estava sentindo em cima dela. E nesses 23 dias ele havia se tornado apenas uma lembrança boa e dolorosa para mim, era como se ele nunca houvesse existido. Porém, acho que é impossível negar que ele está presente em grande parte da minha vida.

Senti o ferimento em meu coração abrir mais um pouco quando vi que ele queria se encontrar comigo.

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