O Senhor do Castelo

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Agraciado por ter nascido no berço da nobreza, o Conde Diozepp Letopus teve a juventude apertada pelos laços do feudalismo e abraçada pelo dom trovadoresco que corria em seu sangue. Discursava com palavras escolhidas, ritmadas, desencadeando a faculdade inigualável de persuasão conferida somente aos poetas. Música é poder. Aqueles que têm o dom do verso são eternos, sua poesia circula livremente, de boca em boca, e atravessará as gerações mesmo depois que padecerem os seus corpos. Mas o Conde não contava que, além de sua música, uma promessa maldita também atravessaria as gerações...

Não foi apenas por conta do dom trovadoresco de Diozepp que Lionarda, secretamente, apaixonou-se por ele. Ela e todas as jovens feudo-vassálicas das redondezas sonhavam um dia serem senhoras de um daqueles castelos pertencentes ao nobre; um homem, além de tudo, bonito, que esbanjava polidez e tinha um bom coração. Coração este que não havia sido preenchido pelo amor de uma mulher.

Foi numa tarde fria em meados do século XIV que Lionarda viu seu pai em desespero, contando as moedas que não seriam suficientes para pagar os impostos.

– Dom Diozepp virá amanhã – o homem disse para a filha. – Eu não sei o que fazer, não tenho o bastante para os impostos desta vez – suspirou. – Como eu disse, minha filha, o carregamento foi roubado e eu perdi tudo... Tudo... Perdoa-me, mas dar-te-ei ao Conde como forma de pagamento. – soprou as palavras com aparente pesar.

A jovem arregalou os olhos de espanto e desta feita observou um fio de lágrima escorrendo pela face de seu pai. Ao mesmo tempo em que o coração se enchia de um sentimento parecido com alegria – por saber que se Diozepp a aceitasse, poderia finalmente ficar próxima a ele e teria a oportunidade de conquistá-lo –, sentia um nó no peito. Como o pai poderia fazer a ela uma coisa dessas? Entregá-la como se fosse uma mercadoria? Era muito provável que o Conde a levaria para prestar-lhe serviços de asseio em uma de suas propriedades e a última coisa que Lionarda queria na vida era terminar seus dias esfregando o chão de onde quer que fosse. Sem nada dizer, ela se recolheu aos seus aposentos e enquanto a lua a observava do lado de fora da janela, a jovem embrulhava, às pressas, algumas roupas e pertences em um amplo pedaço de couro. Entretanto, para a sua desventura, a lua não era a única a observar seu desespero. A luz natural lhe fora bruscamente roubada e um baque ela ouviu, seguido do barulho de correntes. A porta do quarto também havia sido trancada sem que ela percebesse. Estava presa ali, seus planos de fugir não deram certo e não havia nada a fazer senão chorar.

Enquanto a aspereza daquela noite martirizava a pobre moça, o Conde desbravava as entranhas da floresta na companhia de seu cavalo e ninguém mais. Trocara o linho fino por roupas de pele de cabra, escondera os cabelos longos dentro do chaperon; uma espécie de chapéu-turbante que contribuía com o seu disfarce. Agora ele era João, como se apresentava uma vez por semana na taberna de Portucale. Fingia ser um pobre trovador do jogral; ali mesmo ele ganhava as moedas para pagar suas bebidas, comidas e prazeres. Na maioria das vezes usava seu próprio dinheiro, mas nenhum frequentador jamais percebeu que era um nobre. Ele tomava cuidado para não esbanjar demais e não ser descoberto.

Os mais abastados financeiramente jamais frequentavam estabelecimentos mal afamados, pelo menos, não de cara limpa. O Conde não era o único a se disfarçar para poder se divertir, ele sabia disso. Por ali passavam outros nobres, moças recatadas durante o dia que se libertavam nos braços de quem bem entendessem durante a noite e até clérigos, que apesar de condenarem a ingestão excessiva de álcool, jogos e prostituição, também acabavam se entregando, às escondidas, à luxúria. Não havia outra explicação para que a igreja logo se interessasse em recolher impostos dessas estalagens, alegavam que, dessa forma, Deus perdoaria tanta safadeza e mediante ao dinheiro doado às obras cristãs, os pecadores recebiam um aval divino para se esbaldarem sem culpa e sem medo da punição do clero.

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