Capítulo 19.

16 4 0


Sem você, eu me sinto quebrado

Como se eu fosse metade de um todo

Alexandre me fez ficar na bancada de comida assim que chegamos, afirmando que as crianças estariam com fome (e elas realmente estavam) e que seria bom eu ter uma interação maior com todas elas. Depois disso, quando o grupo de baixinhos se dispersou, correndo para a sala de artes, ele fez um sinal para que eu os acompanhasse.

Assim que pisei no piso de concreto da garagem, meus olhos percorreram o local, observando aquelas pinturas todas e bagunça que o lugar estava, e me lembrei de David. Ele com certeza acharia aquilo tudo divertido, principalmente porque as crianças não estavam desenhando, elas simplesmente enfiavam os dedos nos potes de tinta e os passavam pelas molduras, em movimentos aleatórios e coloridos.

- Quer participar também? Temos algumas telas sobrando ali atrás. – Alexandre perguntou, se divertindo com o meu fascínio.

- Eu já tinha visto isso aqui antes, na outra vez em que estive aqui... – comecei, - mas continua sendo incrível.

- É, eu sei. – ele concordou, pegando uma tela do tamanho de uma folha de sulfite em algum lugar. – Eu, que já estou aqui há tempos ainda me impressiono com tudo isso. Acho que essa fascinação nunca acaba, porque continua sendo uma coisa bela.

- É, acho que sim. – balancei a cabeça.

- Bom, é agora. – Alexandre praticamente gritou, mas quando olhei para ele, a tela havia sumido, e ele tinha um pincel melecado de tinta azul em mãos. – Desculpa, Leo, mas todo mundo passa pelo ritual.

Antes que eu pudesse sequer pensar no que poderia estar acontecendo, Alexandre passou o pincel em minha camiseta, e foi seguido por outras crianças.

- Ei! – reclamei, mas eles não pararam. Estavam todos rindo, e, quando percebi, havia caído no chão, tendo um ataque de risos e tentava proteger meus olhos e boca, que não escaparam do massacre colorido.

- Tudo bem, tudo bem, já deu, pessoal. – Alexandre conseguiu dizer, entre risos, e estendeu a mão, me ajudando a levantar.

- Poxa, poderiam ter me avisado, pelo menos. – tentei parecer irritado, em vão.

- Você parece um arco-íris! – uma das crianças gritou, e uma nova onda de risos começou.

- Um arco-íris humano! – outra completou.

- Um arco-íris humano ambulante! – Alexandre continuou, trocando high-fives com os que estavam por perto. – Muito bem, agora todos de volta ao trabalho. – bagunçou o cabelo de um garotinho que ainda respingava tinta em minha calça com os dedos.

- Você vai pra casa assim? – uma garotinha puxou meu braço, as sobrancelhas franzidas em preocupação.

- Eu espero que não. – sorri para ela, que me mostrou duas janelinhas nos dentes da frente ao retribuir.

- O que você acha, Maria, devemos deixar o Leo ir assim para casa? – Alexandre se agachou para ficar da mesma altura que ela.

- Não! – Maria exclamou, e ele riu.

- Muito bem, seu desejo é uma ordem! – levantou-se e olhou para mim. – Tem um banheiro na casa da Lea que você pode usar para tomar um banho, e eu acho que ela deve ter roupas que servem em você guardadas em algum lugar.

Assim que me troquei, colocando as roupas sujas de tinta numa sacola plástica para não sujar o chão e as deixando ali no banheiro mesmo, para pegar antes de ir embora, como me auxiliou dona Lea, voltei para a garagem. Alexandre estava lá com as crianças, mas, desta vez, felizmente, ninguém me atacou com tintas.

- Prometo que foi só hoje. – ele sorriu um sorriso torto, mais puxado para o lado direito que para o esquerdo. – Todos passam por isso no primeiro dia.

- Você também? – pergunto, curioso.

- Não. – ele ri. – Na verdade, fui eu quem inventei essa iniciação, então começou depois que eu já estava aqui.

- Esperto! – exclamei, segurando o riso.

- Pois é. Ainda vai querer aquela tela? – ele pergunta, mas o sorriso em seus lábios confirma que Alexandre já sabe a resposta.

- Quero. – eu respondo, e ele a entrega em minhas mãos, apontando para um lugar vago na mesa onde as crianças pintam e bagunçam.

Sento-me entre duas garotinhas que estão jogando glitter em seus respectivos desenhos.

- Quer um pouco? – uma delas pergunta, e eu me lembro de seu rosto cansado e triste quando a busquei em sua casa hoje de manhã. Agora ela parece renovada, feliz até. Suas bochechas estão sujas de cor-de-rosa e azul, e ela brilha em todos os lugares, até mesmo nas orelhas.

- Claro. – eu respondo, aceitando o potinho de glitter que ela me oferece.

- Olha o meu desenho! - a outra garotinha, Amber, chama minha atenção, puxando a manga de minha camiseta para que eu veja seu trabalho. – É um coelho! – ela exclama, sorrindo de orelha a orelha. Não enxergo exatamente um coelho ali. Com exceção dos contornos que me lembram um animal, o restante é um amontanhado de glitter a lantejoulas, mas ficou bonito, impressionante até.

- Uau! – eu exclamo, sendo sincero. – Ficou demais. – ela sorri ainda mais, e eu temo que sua bochecha se rasgue. – Toma, é seu! – ela me entrega o desenho, tomando o devido cuidado para não borrá-lo ou derrubá-lo.

- Para mim? – pergunto, surpreso, e a garotinha apenas faz que sim com a cabeça, deixando a pequena tela em minhas mãos estendidas. Olho para o desenho e para ela, e de volta para o desenho, sentindo o peito apertar e a garganta arranhar. Não sei porque estou me sentindo com vontade de chorar, mas estou.

- Hora do almoçooo! – uma voz estridente berra do lado de fora, e as crianças saem correndo numa gritaria ensurdecedora para comer, inclusive a garotinha, mas não sem antes me dar um abraço, enquanto eu ainda mantenho o olhar fixo na tela.

- Leo? – a voz de Alexandre me tira de meu torpor, e quando ergo a cabeça, suas sobrancelhas estão franzidas em preocupação, a mão apoiada em meu ombro enquanto a outra segura o avental que estava usando. – Você está bem?

Deixo meus olhos caírem sobre o desenho mais uma vez, deixando que aquele gesto me desconcertasse uma vez mais. Conseguindo engolir o choro e sorrir, coloquei a telinha na mesa, ao lado da minha, e me levantei.

- Tudo ótimo. – respondi, fazendo Alexandre rir enquanto enxugava os olhos com as costas das mãos, já que os dedos já estavam sujos mais uma vez.

- Não se preocupe. – ele colocou o braço ao redor dos meus ombros e se aproximou, falando baixinho em meu ouvido. – Eu também chorei quando ganhei meu primeiro desenho.

Quando você me encontrouRead this story for FREE!