Parte 1

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A noite na capital era brilhante e barulhenta. O tumulto sempre dominava Avriópole desde os morros, amontoados de casinhas, até o litoral, onde o mar de prédios era separado do mar de água por uma linha de asfalto e outra de areia. Naquela noite, o movimento foi ainda mais intenso. Os moradores mais ousados esperavam no porto, junto ao pessoal da mídia, no limite do cordão de isolamento da polícia. Os mais reclusos apenas olhavam de longe o grande navio que trazia os novos humanos.

O casco da embarcação estampava com letras metálicas o nome da empresa que comandava o projeto. Quando o navio aportou, uma rampa desceu e por ela passaram três carros, em fila, com vidros pretos em toda a parte de cima e um pouco mais longos do que os carros comuns. Os dois primeiros eram idênticos; o terceiro, mais longo e quadrado. Todos sabiam que aquele último trazia o presidente da empresa e demais funcionários de alto nível. Nos outros carros, vinha o primeiro lote da provável nova geração de homens e mulheres.

Amparada por carros de segurança privada e viaturas policiais, a comitiva se dirigiu à sede da empresa: um prédio tão alto, luminoso e imponente quanto todos os prédios de Avriópole. Depois de os seguranças afastarem a turba de curiosos e midiáticos acumulados no portão, os passageiros dos três carros entraram e pegaram elevadores até o vigésimo andar. Os novos humanos já sabiam quais eram seus quartos. A maioria se dirigiu até os aposentos. Outros preferiram a lanchonete, e alguns, o banheiro. Dois foram até uma janela em um canto meio escondido, relanceando em volta para terem certeza de que não seriam pegos. Mas, na confusão da chegada, ninguém perceberia se eles sumissem por quinze minutos.

Shan foi o primeiro a saltar para o terraço do prédio vizinho. Apesar de a altura e a distância serem grandes, não houve esforço e ele pousou suavemente. Olhou para Layra, esperando-a pular também. Eles estiveram conversando durante a viagem e desejavam continuar o papo enquanto tomavam um ar e esticavam as pernas. Além disso, os dois estavam tão curiosos para saberem como era o mundo fora do laboratório que não queriam esperar o tour, planejado para a manhã seguinte.

Layra se acocorou na janela, preparada para o salto. No entanto, não era simples para ela. Seu corpo e sua mente tinham capacidades extraordinárias, mas, ao contrário dos outros, faltava-lhe autoconfiança para usá-las. Mesmo assim, usava, para ninguém descobrir nada, e foi pensando nisso que pulou atrás de Shan. Não olhou para baixo e tentou ignorar as borboletas no estômago. Tudo bem, não era tão ruim. Não era ruim saltar uma grande altura se Shan a esperava na aterrissagem. Estava ali outra evidência de algo que Layra era inteligente o suficiente para perceber: ela viera com defeito. Sentia medo em excesso e era capaz de amar.

Amava Shan. Shan não a amava. Ele era como todos os outros componentes daquele lote experimental.

— É incrível — disse o super-humano quando ela pousou ao seu lado. — Nós somos incríveis. Os humanos normais vão nos amar e querer ser como a gente. Nossos criadores vão descobrir como transformar os filhos deles em gente como nós. Somos o futuro. Somos mais fortes, rápidos e inteligentes. Não temos ambição nem inveja, não somos egoístas, somos honestos, solidários.

Shan estava animado como todos, e quando se animava não parava de falar, e quando tagarelava sempre repetia, em algum momento, o discurso de superioridade que enchia os ouvidos do lote desde quando eram embriões in vitro. Agora, aos vinte anos, eles finalmente começariam a conviver com os humanos comuns, comparando suas habilidades em situações reais. Então, agora, o discurso de Shan era ainda mais enfático.

Continuaram pulando, descendo cada vez mais, até chegarem a uma varanda no segundo andar de um prédio, já longe do edifício onde deveriam estar. Não havia problema. Segundo Shan, eles não estavam presos nem precisavam estar, pois eram responsáveis. Sabiam os limites de sua autonomia e voltariam logo.

Abaixo deles, na rua, havia humanos comuns fazendo coisas comuns: andando, pegando ônibus, conversando. Apoiado em um muro, um casal se beijava. Era a primeira vez que eles observavam um beijo ao vivo.

— Eles sentem prazer nisso — disse Shan, pensativo. — Sentem prazer em várias coisas. Inclusive com pessoas específicas. Nós não sentimos prazer, muito menos elegemos pessoas para nos fazerem sentir algo. Não fazemos distinção das pessoas. — Virou-se para Layra e falou como se quisesse convencê-la. — Mas somos inteligentes, e isso quer dizer que temos sede de conhecimento. E eu queria experimentar isso.

Ele fechou os olhos e afrouxou os lábios. Layra se assustou ao perceber seu propósito. Então, o beijou. Um calor súbito brotou no corpo dela e um arrepio a possuiu, o coração tamborilando. Mas Shan encerrou o beijo sem indícios de ter sentido alguma coisa. Apenas disse:

— Vamos voltar.

Por que justo ela tinha o defeito de amar? (um conto)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora