15- PAIXÃO ETERNA

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Brasil, Curitiba, Universidade Federal do Paraná, ano de 2002.


Há vários motivos para não se amar uma pessoa e um só para amá-la.

Carlos Drummond de Andrade


Dentro dessa desordem cronológica das memórias fui levado ao ano de 2002. Agora me situava recordando uma festa no centro acadêmico do curso de Engenharia Química. Foi o dia que encontrei o que chamamos de paixão, que se transformou em amor e que durou uma eternidade. Eu cursava Engenharia Florestal e curtia a universidade em termos sociais. Conhecer pessoas do sexo feminino sempre foi um enorme prazer para mim. Aos dezenove anos, a libido grita forte. Nem sempre tinha sucesso em meus passeios em festas de outros cursos, mas era isso que eu e alguns amigos fazíamos. Nessas festas sempre apareciam meninas bonitas e interessantes. Eu chamava atenção das garotas por ser negro, ter olhos claros e, modéstia à parte, por ser charmoso e autêntico. Meu plano de conquista era começar uma conversa e utilizar de humor para fazê-las rirem e se desarmarem. Isso costumava funcionar, mas somente com mulheres bem humoradas, o que era ótimo, pois não tem coisa pior que mulher mal humorada. Eu não tinha mais a timidez da pré-adolescência. Queria curtir.

Entrei no centro acadêmico e a festa já estava bem embalada. Uma banda de punk rock tocava, as pessoas se empurravam, pulavam, bebiam, conversavam e alguns casais já se acariciavam e beijavam. Imediatamente, quis fazer o mesmo, principalmente à parte dos beijos e carícias. Era do tipo mulherengo. Idolatrava as mulheres, me apaixonava por mais de uma ao mesmo tempo. Porém, nesse dia tudo mudou. Senti que aquela garota era a certa para mim. Ela impunha respeito naturalmente e com suavidade. Não tem coisa melhor do que mulher que se respeita, valoriza-se e sabe seu potencial.

Observava-a de longe. Ela gargalhava e gesticulava mostrando ser genuinamente divertida. Normalmente, o que me fascinava em uma mulher era a bunda e depois o resto. Dessa vez, no entanto, me vi admirando de imediato o sorriso, o gestual, a forma de olhar e de falar. Depois, claro, analisei com cuidado a bela bunda que a moça possuía, me aproximei e fiquei discretamente ouvindo as conversas do grupo em que ela estava. Imitavam o jeito de um professor que, pelo o que entendi, tinha a voz semelhante ao canto de uma gralha e trejeitos bem divertidos. Foi quando um colega chegou e cumprimentou todos da rodinha e entrou no papo. Aprendi que quando as oportunidades aparecem não devemos pensar muito e com ajuda desse colega fui recepcionado no grupo. Foi assim que me apresentaram para Mariana. Falei umas bobagens e arranquei algumas risadas dela. Senti que existiam possibilidades, mas não seria nada fácil. A simpatia dela me contagiou. Quando me despedi falei que não havia mais forma de alterar o destino, com certeza nos encontraríamos muitas vezes.

Na época morava sozinho, pois meus pais adotivos continuavam na Alemanha. Alguns dias da semana trabalhava como atendente em um carrinho de lanches beneficente. Eu não precisava de dinheiro, minha família adotiva era abonada. Vendíamos sanduíches em prol de uma instituição de crianças carentes. O dinheiro colaborava na educação a uma parte das crianças mais pobres de Curitiba. Gostava do ofício. Havia dois anos que me dedicava a esta filantropia. Gostava dos colegas, da diversidade de pessoas que conhecia, do movimento, das universitárias que apareciam e de me sentir útil. Detestava cheirar a bacon, de alguns fregueses chatos, do longo trajeto de ônibus até lá e de ver as universitárias darem mole para os playboys que estavam sempre por ali.

Foi numa terça-feira tranquila, de pouco movimento que a mesticinha surgiu. Pediu um cachorrão simples, sem salada e sem maionese. Não sabia se ela estava ali por saber que eu estaria ou se era uma bela coincidência. Fiz o sanduíche sem esconder minha felicidade e levei até o banquinho onde ela aguardava.

— Pedido simples para uma garota tão especial — só saiu essa frase de música do Wando.

Ela achou engraçado. Tinha o sorriso amplo, sincero. Era uma pessoa espontânea.

— Quem te falou que eu trabalhava por aqui?

— Ninguém, não sabia — disse toda misteriosa. Franzia a sobrancelha de forma sensual.

— Você sempre come cachorrão às duas da manhã da terça-feira e sozinha?

— Tenho alguns estranhos desejos.

— Posso me sentar com você?

— Só se for comer também.

Senti malícia na frase, mas acho que foi apenas impressão.

— Júlio, faz um completo pra mim — gritei para meu colega de turno e me sentei na banquetinha ao lado dela.

Fiquei quieto por um tempo, apenas, trocando olhares um pouco constrangedores. O jeito que ela me olhava era enigmático, mas sentia uma abertura, existia curiosidade e desejo.

— O curso é difícil?

— Minha formatura é daqui a um mês e já tenho um estágio garantido na cidade de meus pais. Tá tudo indo bem.

— Você vai partir daqui a um mês?

— Sim, vou abandonar essa cidade chuvosa e voltar para o sol de Maringá.

— Não podemos perder contato.

Ela esticou os belos lábios e, elegantemente, fez o ambiente se alegrar. Júlio trouxe meu sanduíche.

— Senti que temos uma química. Sério mesmo. Você sabe que é verdade, pois sei que entende de química — continuei as minhas infames brincadeiras.

— Acho que não tenho tanta certeza. Você gosta de completo e eu de simples.

Senti que estava sendo cortado.

— Os opostos se atraem, não é isso que dizem?

— Acontece de tudo. A natureza faz misturas inacreditáveis.

— Sem dúvida. Garanto que nossa mistura pode gerar filhos lindos.

— Acho um pouco precipitado falar em filhos, mas vou esperar pra ver se o destino nos fará nos encontrarmos outras vezes — disse a bela moça, terminando o cachorrão e levantando-se para ir embora.

Ela despediu-se com um aceno delicado e seguiu caminhando sozinha, tomando o chá mate que estava na promoção. Dia tranquilo, comida simples, papo furado e uma multidão de probabilidades se formando. Não falei coisa que prestasse, mas acho que ela relevou isso. Mulheres como ela parecem saber o que pensamos, analisam as almas das pessoas, sabem diagnosticá-las. Percebi isso depois. As coisas complexas surgem das simples, certo? Quando me apaixonei por Mariana? Quando comecei a amá-la loucamente? Não sei dizer ao certo. Pelo que me lembro, enquanto a via indo embora já a amava.

Depois desse dia demorei a encontrá-la pessoalmente. A internet, porém, me ajudou e ficamos amigos. Discutíamos de tudo: livros, filmes, corrupção, ideologias, temas científicos, ambientais, amizade e até mesmo sexo. Ela também acabou seguindo carreira acadêmica e durante o mestrado revisávamos os textos um do outro e chegamos a escrever artigos científicos juntos. Tudo virtualmente. Mas existia, contudo, uma grande paixão reprimida. Lembrei-me de cada palavra trocada com ela e o que sentíamos nesses tempos platônicos.

           

Duro saber que amei essa mulher por séculos e de alguma forma ela se foi naquele acidente, para sempre. Penso isso sentindo toda a estupidez do deserto me atingir, envolto nessa branquidão. Mariana se foi e cada vez isso me doí mais. Logo depois de lembrar esses primórdios do nosso romance me surgiu como uma facada no olho a lembrança do acidente na serra do mar.

De minha família só sabia de Julia ainda viva. Não tinha nada de concreto sobre meu filho Dante, apenas a confirmação de como eu o amava, de seu rosto sapeca no retrovisor. Uma aridez tomou conta de mim. Toda e qualquer lembrança, mesmo que feliz, agora me traria mais saudade, mais sofrimento.

O carro deslizando, o abismo, o verde da floresta, tudo preto. Meu sonho era rever o sorriso de Dante, as covinhas de Julia, o gargalhar de Mariana.

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