- Uau. – deixo escapar, impressionado. – Incrível.

- Qual parte? – ele pergunta, olhando pela janela com um resquício de sorriso nos lábios. – A parte em que fazemos algo em prol do bem maior.... ou a parte em que deixam tal responsabilidade para pessoas como nós? – vira o rosto em minha direção, os olhos brilhando de divertimento.

- Pessoas como nós? – pergunto, tentando erguer uma sobrancelha como vi pessoas fazerem várias vezes em filmes.

- Sim. Hm... – ele para pra pensar. – Estranhas, drogadas, alucinadas...

- Quebradas. – acrescento, observando-o.

- Sim, isso aí.

- E qual seria o bem maior? – questiono e deixo o riso escapar quando Alexandre fica vermelho, sem saber o que responder.

- Ahn... Paz? Igualdade? Felicidade? Uma caminhada para o bem da saúde humana? – ele gargalha, os olhos brilhantes. – Não sei. Não sei mesmo, Leo, agora você me pegou.

O ônibus apita, anunciando a próxima parada. Alexandre e eu nos encaminhamos para a porta, descendo logo em seguida.

- É só seguir reto até o final da rua, aí vamos batendo nas casas e voltamos até este ponto. – ele pega o papel de minhas mãos. – Você fica com o lado esquerdo da rua, e eu com o direito.

- Espera, mas como eu vou saber quem devo pegar? – pergunto, me sentindo perdido.

- Toma, leva a folha, é só olhar o número da casa, bater, esperar alguém atender e falar quem é você e o que quer. – ele me entrega o papel, colocando as mãos de volta no bolso da blusa. – Aí você vai para a próxima casa, até pegar todo mundo, e volta até aqui, onde eu estarei com minha turma.

Olho ao redor, me sentindo um pouco envergonhado por estar perdido.

- Qualquer coisa é só chamar, eu estarei do outro lado da rua. – Alexandre acrescenta, apertando meu braço de leve.

- Ok... Vamos lá. – começo a andar, mas Alexandre reclama. – O que foi?

- Me deixou no vácuo. – ele ergue a mão, esticando-a, e eu bato com a minha. – Bora.

Caminho até a primeira casa com passos inseguros, olhando para trás para ver como Alexandre faz para "pegar" a primeira criança. Ele me vê olhando e faz uma careta, fazendo um sinal com a mão para que eu siga em frente. Suspirando, leio o endereço no papel mais uma vez e bato na porta.

- Pois não? – ela imediatamente é aberta, e uma garota com cara de poucos amigos me olha, mascando um chiclete. – Posso ajudar ou vai querer uma foto? – pergunta, grosseiramente.

- Ahn... – olho para Alexandre mais uma vez, mas ele conversa amigavelmente com alguém e não me vê. – Eu vim buscar a... – leio o nome no papel, querendo ter certeza de que não vou falar o nome errado. – Amanda?

- E quem é você? – a expressão irritada da moça se ameniza, mas ela ainda parece desconfiada.

- Eu estou com o Alexandre, - aponto para trás. – Estou com as oficinas da dona Lea...

- Dona Lea? – ela ri. – Por que não disse antes? Entra aí. – me puxa para dentro da casa, e eu quase caio ao tropeçar no tapete. – Amanda, venha logo! – a moça berra. – Aceita alguma coisa? – olha para mim.

- Ahn... Não, muito obrigado. – sorrio, envergonhado.

- Ah, deixa disso. Para que essa vergonha toda? – ela põe as mãos na cintura.

- Cheguei! – uma voz infantil e animada anuncia, e quem eu imagino que seja Amanda aparece correndo, com uma mochila nas costas e um coelho de pelúcia em mãos. Quando me vê, porém, a menina se encolhe e se esconde atrás da moça que atendera a porta.

- Eita, mas o que é isso? Se envergonhou toda também? Essa coisa de vergonha deve ser contagiosa. – a moça ri. – Esse aí é o Leo, Dada, é ele que vai levar você hoje.

Sorrio para a garotinha, mas ela continua escondida, olhando-me com desconfiança.

- Como eu vô sabê que você não vai me robá? – ela pergunta, deixando-me sem resposta. Olho para a moça em busca de ajuda, mas ela dá de ombros, deixando que eu responda a pergunta.

- Hm... O que eu posso fazer para você saber que não vou te roubar? – pergunto, dobrando os joelhos para ficar na mesma altura que Amanda.

- Você tem que prometer. – ela ergue o queixo numa postura desafiadora para uma criança, mas fofa para quem vê.

- Ok. Eu prometo.

- Não, não assim. – Amanda caminha até mim, trazendo o coelho consigo. – Tem que prometer direito, com o dedinho. – estica o dedo mínimo em minha direção. Olho para a moça-cujo-nome-eu-ainda-não-sei, e ela tapa a boca com a mão, sorrindo.

- Tudo bem. Eu prometo que não vou te roubar, Amanda. – encaixo meu dedo no dela, e balançamos as mãos, fechando o trato.

- Tá. – Amanda fala, sorrindo no mesmo instante. – Tchau Baba. – ela corre para abraçar a moça, que lhe dá um beijo no topo da cabeça.

- Tchau meu amor.

Amanda se solta da moça e estica a mão em minha direção, esperando que eu a pegue.

- É melhor você correr, Leo, vai acabar atrasando com as outras crianças. – ela fala, mexendo nos cabelos de Amanda antes que a menina me puxe em direção à porta. – Se comporta, viu, Dada?!

- Tá. – Amanda grita sem olhar para trás, mas eu me viro para me despedir de "Baba" com um aceno. Ela sorri e fecha a porta enquanto Amanda me guia para a próxima casa. Não vejo Alexandre em lugar nenhum, mas uma das casas do outro lado da rua tem sua porta totalmente aberta, então imagino que ele esteja lá, conversando com alguém. Deixo que a garotinha me arraste e bata na porta de seus vizinhos, que a atendem com a mesma expressão furiosa de Baba, mas que logo sorriem ao ver a garotinha de mãos dadas comigo.

- Você é novo, é?

Quando você me encontrouRead this story for FREE!