Capítulo 1

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BRASÍLIA-DF

27/SET/2012 - 22 h - 5ª feira

Mais uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito havia chegado ao fim.

A despeito da grande expectativa gerada pela mídia, do esforço hercúleo de alguns parlamentares bem-intencionados, de centenas de horas de gravações telefônicas comprometedoras, dos prolongados bate-bocas e das inúmeras provas contundentes, o resultado foi pífio: apenas dois suspeitos indiciados - peixes pequenos do imenso cardume - e a absolvição por "falta de provas" dos demais suspeitos, dentre eles, os verdadeiros responsáveis pelas falcatruas que deram origem àquela CPMI, que muitos acreditaram que seria a investigação do século. A CPI acabou em pizza! - Como a população já se acostumara a dizer.

- É um absurdo dizer que essa CPMI acabou em pizza! - Bradou o Dr. Hermenegildo Pillares, Senador da República. - Isso é uma afronta, praticamente uma heresia!

- Então Vossa Excelência não concorda com isso, senador? - Questionou um deputado que conversava com o Senador Pillares.

- Claro que não! De maneira alguma! - Respondeu o senador enquanto dava uma longa baforada em seu charuto Cohiba Esplendidos e bebericava seu Prosecco Masottina Extra Dry da região italiana do Valdobbiadene, especialmente encomendado para aquela ocasião - Pizza é coisa do baixo clero. Comigo, CPMI acaba em lagosta, champanhe e caviar! - Complementou Hermenegildo, dando uma longa gargalhada que ressoou pelo salão do restaurante, um dos mais caros de Brasília, que havia sido reservado pelo parlamentar duas semanas antes para festejar o desfecho já previsto daquela investigação parlamentar.

- Quem não tem competência não se estabelece! SAÚDE! - Berrou o senador, enquanto erguia sua taça para brindar seus convivas, cerca de cinquenta pessoas especialmente convidadas para comemorar com ele a sua "vitória" sobre os "caluniadores de plantão", como ele mesmo intitulava todos os que questionavam as suas negociatas.

Durante o jantar, que contou com caviar russo negro de Beluga na entrada, lagosta e vitela preparadas por um chef de Paris e regados por um Chardonnay da Borgonha, além do indispensável e legítimo champanhe Moet & Chandon, Hermenegildo Pillares confraternizou com praticamente todos os convidados, mostrando a cada um que ainda estava firme, de pé, pronto para futuras transações. A CPMI só serviu para provar que ele tinha o controle da situação e sabia muito bem o que fazia. Macaco velho não mete a mão em cumbuca! - Dizia ele para quase todos com quem conversava.

Entre uma conversa ao pé do ouvido de um e um tapinha nas costas de outro, o político desfilava pelo imenso salão acompanhado de sua amante, Marlene, uma bela jovem com quem morava há cerca de seis meses. Uma diversão saudável - como ele mesmo costumava dizer aos seus amigos mais íntimos - para alguém que passava dos 65 anos de idade muito bem vividos à custa das verbas públicas e de suas armações. Segundo seus planos, depois do jantar sua acompanhante complementaria aquela noite maravilhosa, fechando-a com chave de ouro.

Após quase três horas de comes e bebes, de muita música e de várias conversas que certamente lhe renderiam futuras transações, o velho senador despediu-se de todos e foi para sua casa juntamente com a amante, para o que ele considerava ser a apoteose de um grande dia.

Em sua mansão às margens do Lago Paranoá estava tudo pronto: música suave na sala, roupões de seda sobre a cama, champanhe e taças a postos, além de um comprimido de Viagra discretamente ingerido durante o percurso de volta para casa.

Tudo havia sido minuciosamente planejado. Faltou, contudo, controlar a enxaqueca de sua amante que, mal chegou em casa, correu para o banheiro, ingeriu dois comprimidos de Aspirina acompanhados de um Lexotan, tomou um banho rápido e caiu na cama, sem ver mais nada. Marlene era uma ótima companhia, especialmente na cama, mas nas últimas semanas vinha sofrendo constantemente de estranhas enxaquecas, que costumavam estragar os planos libidinosos do senador.

VIGILANTE - Uma história que não acaba em pizzaRead this story for FREE!