Capítulo 17.

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Você é a minha parte favorita de mim

Chegando em casa, nem tenho tempo de comer, já vou direto para o banho, troco de roupa e saio, falando um breve olá para Magda e andando rápido para não chegar atrasado na reunião. Não sei se Alexandre estará lá, ele não falou nada sobre isso, então acredito que não esteja.

Empurro as portas de vidro e vejo que a roda já está formada. Droga, atrasado novamente! O único lugar vazio é ao lado da enfermeira, que eu descubro se chamar Lisandra. Agora pelo menos eu sei o nome dela.

- Muito bem, quem quer ser o primeiro? – ela pergunta, e antes que possa ao menos olhar para mim, uma garota no fundo da sala levanta a mão, começando a falar. Salvo pelo gongo.

Não falei nada na reunião, minha cabeça parecia estar em outro lugar. Acho meio surreal que, de repente, as pessoas decidam confiar em mim, principalmente depois de um episódio de quase-surto. Não sei se mamãe e o doutor estão aprontando alguma, apenas fingindo que confiam em mim, estou feliz de que eles pelo menos tentem fingir, caso isso seja uma armadilha de verdade. O que me deixa triste é pensar que Alexandre pode estar metido nisso, me vigiando ou algo do tipo. Não sei se estou sendo paranoico ou sei-lá-o-que, só sei que não estou gostando de me sentir assim.

Quando chego em casa, as luzes da cozinha e dos quartos já estão apagadas. Não são nem dez horas da noite. Subo as escadas em silêncio para conferir se mamãe e Magda estão mesmo dormindo, e, após uma rápida olhadela pela frestinha da porta, confirmo minhas suspeitas. Estão capotadas.

Desço até a cozinha, acendo a luz e abro a geladeira, procurando sobras do almoço ou qualquer coisa comível. Estou morrendo de fome! Encontro um pedaço enorme de lasanha congelada no fundo do freezer e, colocando o recipiente no micro-ondas, corro para tomar um banho rápido, torcendo para que não precise requentar a comida caso demore demais.

Demoro para encontrar uma camisa limpa, reviro o guarda-roupa e não consigo achar nenhuma, então enfio um moletom pela cabeça, já que está frio. Olho por debaixo da cama, esperando encontrar alguma das duas bolas de pelos que vivem passeando pela casa, mas o chão está vazio, com exceção de algumas tranqueiras minhas. Talvez eles estejam passeando pela rua, ou estão dormindo escondidos em algum lugar.

Tomo cuidado para não fazer barulho ao pisar nos degraus e sigo para a cozinha novamente, chegando segundos antes de o micro-ondas apitar. Bem na hora, pela primeira vez em muito tempo.

Pego um garfo na gaveta de talheres e começo a comer de pé mesmo, olhando pela janela da cozinha. A escada de madeira ainda está jogada no quintal, fora do lugar onde deveria estar. Deixo um recado no fundo de meu cérebro para arrumá-la amanhã e, quem sabe, dar uma organizada no quintal também, e no quartinho dos fundos. Quem sabe no que ele pode se transformar? pergunto a mim mesmo, lembrando-me do ateliê de David e da casa de Lea, que também fica entrando e saindo da minha linha de pensamentos.

Aquele lugar era surreal, parecia ter saído de um sonho, uma utopia. Eu nunca poderia imaginar que um lugar tão belo e criativo como aquele poderia existir, e, ainda por cima, era frequentado por pessoas como eu. Quebradas. Pessoas que também se sentiam deslocadas, ou diferentes.

Jogando o garfo na pia e o recipiente de papelão no lixo, apago a luz da cozinha, subo e escovo os dentes, caindo na cama logo em seguida. Ainda é cedo, mas estou me sentindo cansado. Antes de fechar os olhos, porém, lembro-me de que preciso tomar os remédios, e o faço com gosto. Se quero melhorar, que seja da forma como os médicos indicam, mas quem sabe... Quem sabe, ajudar Lea e Alexandre não me traga mais benefícios do que as pílulas jamais trouxeram, e quem sabe eu não me torne uma pessoa melhor.

É com esse pensamento que eu fecho meus olhos e deixo minha mente descansar, mergulhada em meu subconsciente, que me traz sonhos e lembranças que eu gostaria de esquecer.

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