Capítulo 16

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ALICE

As chuvas de dezembro chegaram anunciando um verão quente e úmido. Ainda faltava alguns dias para a nova estação começar oficialmente, mas o clima já era o típico calor abafado. Alice arrumava as malas rapidamente e feliz. Nem acreditava que conseguira a guarda provisória de Lipe e uma autorização judicial para poder viajar com ele. O documento tinha sido liberado no começo daquela tarde.

- Posso entrar? – Danielle, agora com cabelo cortado, batera na porta entreaberta.

- Nem precisa pedir Dani. – A loira sorriu e entrou se sentando na cama.

- Animada em passar o natal na Europa hein.

- Claro. Já fiz isso antes, mas agora é diferente.

- Tudo é diferente não é Alice?

- Ainda bem.

- Eu também devo viajar agora. – O tom que Danielle usou fez com que Alice parasse no meio do quarto e a olhasse.

- Onde você vai? – A detetive sorriu em ver que a garota era mesmo muito inteligente.

- Floripa. – Alice jogou suas roupas no chão e correu para a cama. Se sentou sem nem mesmo importar de estar amassando alguma coisa.

- O que você descobriu?

- É uma pista quente. Um rapaz, que faz relativo sucesso com piano bate com as características do filho da Eliza. A história meio parecida. Preciso ir até lá para saber mais. Talvez seja ele. – Alice a abraçou.

- Que Deus te abençoe! Espero que seja, há de ser, ela merece. – Ela disse sem perceber que tocava com certa força o pingente de ouro em formato de asas que o avô lhe dera.

- Você nunca o tira não é? – Alice não entendeu logo de inicio, mas depois sorriu.

- Não. Quando estive longe esse pingente me deixava mais perto de casa, da minha família. Sei lá, parece bobeira, mas para mim não é.

- Isso que importa então.

- Senhorita? – Miranda batia levemente na porta que continuava encostada. Ela ainda era gorda, apesar de ter emagrecido bastante nos últimos meses graças ao sofrimento de ter um filho na cadeia.

- Pode entrar Miranda. – Alice respondeu com a voz seria. Ainda não gostava muito daquela mulher, ainda mais ela sendo mãe de um monstro. Mas agora entendia que ela não tinha culpa de nada e a respeitava como ser humano, coisa que ela não sabia fazer antes.

- Desculpe, mas Lipe está chorando sem parar e o senhor Álvaro pediu que a chamasse. – Tanto Danielle quanto Alice reviraram os olhos.

- Meu irmão é uma lesma mesmo! Onde eles estão?

- No escritório.

As mulheres desceram rapidamente e entenderam o motivo de tanto berreiro do garoto. Ele apontava sem parar para uma bomboniere repleta de pirulitos e balas. Só Álvaro parecia não entender isso.

- Você é cego? – Alice perguntou enquanto pegava Lipe nos braços. Danielle se encarregou de abrir um pirulito para o menino que assim que teve o doce nas mãos se calou.

- Nem vi isso ai! E depois não se deve dar tudo que ele quer.

- Não Alvy! Mas você deixa ele de frente para doces! Ele é uma criança, o que você esperava? E depois ele pode aguar.

- Você vai estragar esse moleque, estou avisando. – Alice colocou Lipe no chão e se sentou em um sofá. Danielle se sentou perto do bebê, ela também resolvera degustar um pirulito. Álvaro se jogou no outro sofá.

- Foi ver papai hoje? Como ele está?

- Ele fica sempre mais animado depois da fisioterapia. Contei para onde você vai e ele ficou muito feliz. – Ela deu um suspiro.

- Ainda me sinto culpada em ir.

- Ai Alice, nada ver. Você aqui ou lá não ia fazer diferença na questão do papai. Ele está se recuperando bem, já consegue mover os braços completamente e falar algumas palavras.

- Me dói tanto ver ele assim. Mas amanhã, antes de ir para o aeroporto vou lá. Ele adora Lipe e Lipe o adora também.

- Ofélia está tentando um habeas corpus novamente. – Álvaro disse amargo. Nenhum dos dois voltara chamar a mulher de mãe.

- E você acha que ela tem chance?

- Espero que não.

- Já sabe onde vai passar o natal, já que não quis ir comigo? – Alice achou melhor mudar de assunto, o clima ficara pesado.

- Vou para o sul com a Dani. Angus vem conosco. Aquele ali virou grude da gente, principalmente da Dani. – A mulher ficou vermelha.

- Alice tem razão, você é um idiota! – Os irmãos riram.

- Angus é uma ótima pessoa Dani, não o deixe escapar.

- Eu ainda não acredito que ele te apoiou no caso de Oliver. Declarar que você quis sumir por uns tempos sem avisar foi ridículo. Tudo para salvar aquele lá. – Alice se levantou espreguiçando.

- Na boa Alvy, eu não tenho mais paciência para discutir isso com você. – Ela foi se dirigindo para porta.

- Vocês tem se encontrado né?

- Quantas vezes vou ter que responder isso? Desde o dia que ele me libertou eu nunca mais o vi. Vou voltar para as minhas malas. Dani, cuide de Lipe um pouco por favor.

E não era mentira. Nem mesmo quando foi a delegacia para prestar esclarecimentos se encontrou com ele. Via Laura regulamente, já que ela sempre ia visitar Lipe. Mas Oliver não. Não teve coragem de procurá-lo e parecia que ele também não. Ao entrar em seu quarto suspirou. Assinou mais um cheque para sua doação mensal à Pastoral da Criança e outro para uma creche em Belo Horizonte. Com a caneta na mão, teve uma idéia louca e rabiscou um bilhete. Antes que perdesse a coragem chamou um serviço de motoboy para enviar a sua mensagem.

Apesar do feriado de Natal ainda estar um pouco longe o aeroporto Internacional estava apinhado de gente. Alice já tinha despachado sua bagagem como a de Lipe também. Se despedira do irmão, do primo e de Dani. Preferiu esperar a hora do vôo dentro da sala de embarque, menos confusão. Estava ansiosa. Electra tinha ido uma semana antes para Trivólzio preparar tudo para sua chegada. Ainda demoraria um pouco até chegar na pequena cidade. Mas ela também estava nervosa por outro motivo. Se perguntava se seu bilhete havia chegado.

- Eu duvidei que fosse verdade, mas arrisquei mesmo assim. – Ela sorriu ao ouvir aquela voz que vinha de trás dela. Virou o pescoço.

- E eu duvidei que você aceitaria. – Disse sorridente. Oliver se sentou ao seu lado.

- Já devia saber que gosto de desafios Alice. – Lipe esticou os bracinhos a ele. Parecia que estava com saudades. O rapaz o pegou.

- Você acha que será capaz?

- A Itália há de me ajudar. E só de você ter me proposto isto, acho que já comecei a te conquistar. – Alice deu uma gargalhada.

- Na verdade só queria uma companhia nesse vôo longo. A parte do "desafio a me conquistar em mais dois meses" foi só um atrativo.

- Então você deveria pensar seriamente em mudar sua profissão para advocacia ou publicidade, você tem um alto poder de persuasão. – Ela apenas sorriu. Logo o vôo deles foi anunciado e eles seguiram para o portão de embarque.

- Oliver? – Alice chamou enquanto eles caminhavam no corredor que dava acesso à aeronave. Ele ainda estava com Lipe nos braços. A olhou.

- Sim?

- Obrigada por essa Alice aqui. Obrigada mesmo.

Eles sorriram um para o outro e entraram no avião. Entraram em uma vida nova. Em um caminho diferente.


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