Alice estava congelada no lugar. Até aquele momento ouvira histórias de superação, de pessoas que não tinham nada, mas com esforço conseguiram mudar a realidade. Aquela mulher a sua frente lhe contava um enredo avesso. Ela teve tudo e agora não tinha nada. Como isso era possível? Se remexeu na cadeira com vontade de perguntar alguma coisa, mas era como se sua voz a tivesse abandonado. Meio minuto daquele silêncio e ela começou a entender o porquê de conhecer Eliza.

- Você entendeu não é? - Laura não tirara os olhos dela em nenhum momento e percebeu quando finalmente Alice juntou as peças.

- Acho que sim. - Sua voz era baixa e ela olhava para os pés. Ouviu uma risada triste.
- Eu também entendi. Mas já era tarde. Minha soberba e meu orgulho me cegaram. Dizem que eu fiquei louca. Conversa fiada. Só fiquei cansada de sofrer. E que bom que existem pessoas diferentes do que eu fui. Pessoas que usam o que tem para ajudar os outros. Eu não tenho onde morar, mas aqui sempre me acolhem, me dão comida e até olham a minha saúde. Me sinto muito velha. - A mulher suspirou e Alice a encarou.
- Mas você não devia desistir. E o seu filho? - Eliza a encarava de volta com os olhos fundos e marejados.

- Ele nem sabe que eu existo. Era um bebe quando fui expulsa da minha própria casa. Ele pensa que aquela mulher é mãe dele. Soube pelos jornais que eles saíram do Rio alegando ser uma cidade muito violenta. Mas não é a verdade. É que eu estava andando atrás dele na escola. O levaram para o sul do país. Longe suficiente para eu nem cogitar a ideia de ir. - Alice se levantou com uma fúria contida.

- Você é fraca! Que o levassem para o inferno, mas fosse atrás dele e contasse a verdade. Se existem pessoas aqui mesmo nesse hospital que se preocupam com a senhora, tenho certeza que a ajudariam ir onde quer que esse garoto esteja. Mas a comodidade de se fazer de vitima e sofrida é melhor. - As pessoas que estavam próximas se assustaram com o rompante da garota e passaram a prestar mais atenção na conversa. Laura segurou seu sorriso de orgulho e Eliza esbugalhou os olhos, mas logo em seguida tomou seu ar arrogante novamente.

- Como ousa falar assim comigo? Não sabe nada de mim além do que contei e eu nem quero saber quem é você. Garota insolente. Pensa que sabe muito da vida? Não sabe nada. Jovens com essa história de que podem mudar o mundo. Se pudessem o mundo ja estaria bem melhor do que está! Não tenho forças para mais nada e ele de qualquer forma está bem onde está! - Alice sorriu debochada.

- Mas com toda certeza você é uma fraca. Deixou que te arrancassem tudo. Até sua dignidade. Na verdade você não aprendeu nada com tudo que passou. Só é capaz de amar a si mesma e acredita que seja um favor amar os outros. Então não faz muita questão. Se acha tão boa e tão acima de todos que não se importa se está sozinha. Afinal, quem é bom suficiente para estar na sua grande cia? Você vai crescendo e vai percebendo que não tem amigos. Mas o dinheiro compensa. As viagens te distraem. Empregados resolvem seus problemas. Ótimo não? Mas vejam só! Você está há anos em um grande problema e onde estão os empregados para resolve-lo? Não há nada e nem ninguém por você verdadeiramente e assim você desiste de tudo. - Alice parou e tomou fôlego. Seu peito estava pesado ao acabar de dizer aquelas palavras, pois aquilo tudo servia para ela também.

- Acalme-se Alice. Eliza nunca teve a oportunidade de aprender alguma coisa. Não a culpe tanto. - Laura tentou apaziguar os ânimos. Eliza chorava e parecia que a garota ia fazer o mesmo.

- Ela está certa. Sempre pensei assim e por acreditar nessas coisas abri mão até do meu filho. No fundo ainda espero que alguém apareça e resolva tudo para mim como sempre foi. Mas não vai aparecer não é? - Sua voz soava infantil e chorosa. Talvez ela não fosse completamente normal.

- Não, não irá. Faça o que tem que ser feito. - Alice falou mais terna.

- Já é tarde demais. - A mulher se movimentou e sentou na cadeira que tinha oferecido a menina loira. Olhava para as mãos sujas em cima de seu colo.

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