Capítulo 9

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PAGANDO A DIVIDA

O prazo que o mascarado lhe dera chegara ao fim. Uma semana para descobrir histórias relevantes, que possuíssem algo a se tirar. No fim daqueles setes dias, Alice conseguia ressaltar uma coisa em comum em todas as histórias que leu, a força da superação, a determinação em aprender com os percalços da vida. Ela ainda seria capaz de perceber que em cada personagem ela encontrou coragem. Coragem em si mesmo. De confiar na sua própria capacidade de realizar. Alice conseguiu ver claramente que qualquer pessoa, não importa de onde vem, a idade, ou a época a qual pertence, tem um dom próprio. Algo que os diferencia de alguma maneira, que faz com que cada pessoa seja importante no todo, que as mova em busca de algo maior. E ela também percebeu que sozinho ninguém é capaz de nada. Porque um sempre precisará do outro para completar. O ser sozinho é incompleto e sem retorno. Divaga sobre os últimos quase dois meses e como as coisas haviam mudado para ela quando um pigarro a chamou de volta para a realidade.

- Olá Alice. – O mascarado estava em pé a sua frente e tinha um tom sério.

- Olá. Não deveria estar aqui? – Ela talvez não devesse ter saído do quarto, mas a porta estava destrancada.

- Tudo bem. Quero te contar uma última história hoje. Prometo ser breve. – Alice se sentou mais corretamente na sua poltrona e o encarou interessada. Ele por sua vez aconchegou-se no pequeno sofá, que usava toda vez que ia a biblioteca.

- Estou ouvindo. – O mascarado notou como o humor de Alice havia melhorado, principalmente na última semana. Lamentou que em breves minutos teria que dar mais uma má noticia a ela.

- É a história de um homem que nasceu no seio de uma família rica e poderosa. Ele sempre teve tudo que precisou e desejou. Aprendeu a ser arrogante, seletivo e autoritário. Regras básicas que regiam sob seu sobrenome. Foi guardião de tradições preconceituosas e excludentes. Se casou com uma mulher de caráter forte e amável. Isso o amoleceu com o tempo, mas não o suficiente. Ele ainda passou suas crenças ocas para outras gerações e ainda pisou e maltratou muitos homens de bem até se descobrir doente e vulnerável como qualquer um, como tantos que ele havia descartado por estarem com algum problema. Só depois que seu corpo lamentou as atitudes equivocadas, que sua consciência se deu conta do arrombo que ele causara. Já estava velho, viúvo e com netos crescidos. Acreditou que era tarde demais. Mas, nunca é tarde demais quando ainda se tem vontade de fazer o certo, de corrigir erros, de aprender e ensinar. Ele tentou a sua maneira, passar para frente a sua nova descoberta. Talvez se leve tempo para que as palavras dele e mesmo os sentimentos, ecoem mais fundo, mas ecoarão e é isso que importa. Por fim, ele não desistiu, e até ao seu último suspiro, ele lutou para que o seu novo conhecimento, repleto de arrependimento e carinho, chegasse a quem ele amava. Se foi na esperança de que, apesar de tudo, tenha valido a pena viver, nem que fosse só para descobrir que séculos de uma verdade não significam que ela seja a suprema e até quem sabe, a verdadeira. – Ele se calou. Alice já tinha abaixado a cabeça. Ela era inteligente suficiente para saber de quem ele estava falando.

- Então ele morreu? – Não levantou o rosto para perguntar. Sua voz era baixa e um pouco engasgada, mas não estava chorando.

- Há dois dias, em uma cidade da Itália. A doença dele avançou bastante nesses últimos meses e realmente não tinha mais muito o que se fazer. O corpo dele chegou ao Brasil no inicio da tarde. Seu avô quis ser enterrado perto de sua falecida esposa. – Alice levantou o rosto e encarou o mascarado. Ela tinha uma feição que misturava dor, saudade e raiva, muita raiva.

- Como você pode saber de todos esses detalhes? Não é justo! É a minha família e não a sua! Eu quero estar com eles! Tanto sofrimento e eu aqui! Quem é você afinal? – Seu rosto estava vermelho e agora molhado de lágrimas. Ela gritara, enfim, colocando todos seus sentimentos para fora de uma única vez.

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