Capítulo 5

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A VIDA CONTINUA, DE QUALQUER FORMA

Já era quase fim de agosto e nada dentro daquela casa havia mudado muito desde o sumiço de Alice. As primeiras semanas foram de busca e apreensão, ainda mais depois da noticia de que duas pessoas da família haviam sido brutalmente assassinadas. Mas, o restante do mês, seguiu normal, ao menos, dentro do possível. Os Cimério Sucré ainda buscavam noticias de Alice e seu primo, Fedro, mas nenhuma pista havia sido encontrada.

- Como você consegue? – Álvaro estava deitado em um dos sofás da grande sala de estar de sua casa, vendo sua mãe, sentada em uma poltrona a frente, acabar de retocar uma maquiagem. Ela olhou para o filho com um certo tédio, quando foi responde-lo.

- Álvaro, como eu consigo? O que quer que eu faça? Sua irmã sumiu faz quase um mês e tudo que podíamos fazer foi feito. Alice jamais pararia sua vida por nossa causa, assim como nós não devemos parar por ela. – Ofélia se olhou no espelho novamente, parecia satisfeita com o que via. Álvaro se sentou no sofá, estava perdendo a paciência.

- Você realmente não se preocupa? Se ela está passando fome, se está sendo violentada de alguma forma, se está bem, se está viva?! - Ofélia se levantou, ajustando melhor a saia negra em seu corpo esguio.

- Francamente Álvaro, você acredita que a minha preocupação faria alguma diferença na situação da sua irmã? Me descabelar e me enfurnar no quarto não a traria de volta nem melhoraria as coisas, ao contrário, só aumentaria os problemas. Acredite, se surtar ajudasse pode ter certeza que eu surtaria. – Ofélia piscou para o filho, que indignado se levantou.

- Você é pior do que eu pensava! Você ama alguém além de você mesma? – Ofélia perdeu o ar descontraído que estava em seu rosto branco. Começou a tremer de leve o lábio superior, coisa que sempre acontecia quando ficava nervosa. Encarou o filho dura.

- Como ousa a colocar em dúvida o meu amor? O meu amor por você, por sua irmã, por seu pai, por essa família?! Perdeu de vez o juízo Álvaro? – Ofélia não gritava, ela jamais faria algo do tipo. Mas sua voz soava mais forte, queria mostrar toda a sua indignação.

- Quer que eu acredite que existe amor dentro de você? Me diga como. Sua filha sumiu debaixo do seu nariz há quase um mês, e o que você faz? Vai a festas e mais festas, como se a vida fosse cor de rosa. Faz compras como se todo o estoque de produtos fúteis do mundo fosse acabar amanhã. Até motorista novo você contrata. Quem, em sã consciência, conseguiria acreditar que você é uma mãe que ama, que se preocupa, com essas suas ações? – Álvaro também não gritava, apenas disse tudo em um fôlego só, como se estivesse engasgado com essas palavras.

- Eu continuar vivendo apesar de tudo não quer dizer que não ame. É apenas sinal de que eu sei viver, que entendo que a vida é única e não podemos desperdiçá-la, por nenhum motivo.

- Entendo mamãe. Não desperdice a sua vida com seus filhos então, ou melhor, com o único filho que lhe restou. Estou voltando para o meu quarto.

Álvaro saiu da sala furioso e ainda a tempo de dar um encontrão no pai que acabara de entrar no recinto. Odilon, ao contrário de Ofélia, não estava tão tranqüilo. Sua filha sumira sem deixar rastros e seu irmão havia sido assassinado de uma maneira muito tosca. Além disso, seu sobrinho também sumira e seu pai partira para outro país anunciando sua morte. Ele andava abatido, comia pouco e trabalhava menos. Suas noites eram de pura insônia e whisky importado. Sentia que talvez estivesse perdendo o controle das coisas e isso era péssimo, ele tinha que estar sempre no controle. Olhou a esposa parada ao meio da sala, e com o olhar cansado perguntou.

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