Capítulo 4

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LENDO O JORNAL

Ao longe se ouvia um choro abafado. Tapou os ouvidos com as mãos, mas o som irritante invadiu sua precária proteção. Pensou que estivesse sonhando. Mas cada vez mais o barulho ficava mais alto. Abriu os olhos irritada e aquele lamento foi completo. Viu o bebê com os braços e pernas agitados, com lágrimas escorrendo por seu rosto gordinho. Alice estava indignada com a situação. Custara dormir na noite passada, a última coisa que precisava era de um bebê chorão aquela hora da manhã. Mas que hora era aquela? Ainda estava escuro, o céu começando a clarear, ela reparou de relance, enquanto se levantava e ia até onde tinha deixado o cesto do bebê.

- O que você quer seu infeliz? – O bebê continuava chorando com mais força. – Ok, fome de novo? Você não tem fundo? Leite? Vou te entupir de leite! Mas cala a boca, pelo amor de Deus! – Lipe não atendeu ao pedido dela, e continuou a chorar em plenos pulmões. Sonolenta e com dor de cabeça, Alice abriu mais um litro de leite, e encheu a mamadeira do garoto. O pegou no colo, muito desajeitada, e com certa grosseria colocou a mamadeira na boca de Lipe, que mamou avidamente.

- Se eu chorar como você eu também ganho comida? Será? – Nesse momento a porta se abriu e Alice viu aquele mascarado mais uma vez entrar.

- Que cena inusitada. Alice com um bebê nos braços, o alimentando.

- Você acha isso divertido não é?

- Acho desafiador.

- Imagino que sim.

- Você não trocou Lipe?

- O que?

- Não está sentido esse cheiro?

- Cheiro?

- Alice, o menino deve está com a fralda cheia. – Ao ouvir isso, Alice levantou de uma vez e depositou o bebê dentro do cesto, que estava em cima da mesa.

- Ok, essa brincadeira já deu. Leve de volta o filho a mãe e me deixe em paz. Se eu morrer tudo bem, mas você quer matar uma criança que nem tem consciência dela própria?

- Preocupada com ele?

- Só não acho justo isso. Se ele ficar aqui as chances serão mínimas. Eu não sei cuidar de bebês. – Ela tinha uma voz suplicante.

- É por isso que ele está aqui. Para você aprender. Melhor trocá-lo Alice e fazer seu café. Ah, tome um banho também. Tem toalhas, sabão e xampu no banheiro. – Ao dizer isso o homem saiu.

Alice ainda ficou um tempo, parada em pé, no mesmo lugar sem saber ao certo o que fazer. Trocar um bebê? O desespero começava a tomar conta dela. O cheiro, que antes ela não estava sentindo, começou incomodá-la. Procurou entre as sacolas fraldas e logo encontrou algumas. Foi até Lipe, que aquela altura mordia com muita vontade seus próprios dedinhos, e o encarou como se ele pudesse responder pra ela o que fazer. Se convenceu que aquela situação era ridícula demais e começou a tirar o tênis do menino. Com nojo, tirou a calça dele e aquele mau cheiro se intensificou. Desprendeu a fralda e acreditou que fosse vomitar quando viu seu conteúdo. Embolou a fralda suja e correu com ela para ao banheiro, a jogando na lixeira. Voltou e colocou a fralda limpa nele. Lipe fez uma careta, como se não tivesse gostado da fralda nova. "Porquinho" ela murmurou pra ele, mas se sentindo bem com a situação, afinal tinha conseguido fazer alguma coisa enfim. Resolveu que era hora de tomar um banho e foi até o banheiro. Aquele vestido já estava ficando sujo e ela também.

Quando terminou sua limpeza pessoal, se deparou com o problema de que não tinha outra peça de roupa e teve que vestir seu vestido negro novamente. Voltou para a sala branca, onde Lipe agora dormia e o sol entrava sem pedir licença pelas janelas da frente. Seu estomago reclamou por comida. Receosa foi até onde estavam os mantimentos e viu que tinha pouco leite, uma maçã, pão dormido, manteiga, água, pó de café. Queria muito sentir o sabor de um café fumegante. "Fazer café não deve ser tão difícil", pensou. Pegou o livro de receitas que estava jogado em um canto da sala e leu como ter um café fresquinho ao alcance de suas mãos. Fez isso, enquanto a água fervia, lambuzou o pão dormido com manteiga. Passou a água pelo filtro com pó, e mal conteve sua ansiedade para beber o primeiro café feito por ela. O cuspiu assim que o sentiu na boca, estava horrível. Muito pó e nada de açúcar. Segurou um grito de frustração e se resignou apenas com o pão dormido e manteiga. Depois de um tempo, após seu "banquete" matinal, Lipe acordou um tanto agitado. Com a intenção de distraí-lo, Alice o tirou do cesto e o colocou no chão onde ele ficou engatinhando de um lado para o outro, ate ser interrompido pela porta que se abriu, pela segunda vez aquele dia.

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