Capítulo 16.

27 4 0


Você é a melodia perfeita, a única harmonia que eu quero ouvir.

Antes...

O telefone não para de tocar, mas ninguém o atende. Magda se trancou no quarto, e eu consigo ouvir seus soluços daqui. Mamãe se trancou no meu, de forma que eu estou preso, e só posso escolher entre a sala, a cozinha, o banheiro e lá fora; vou para fora.

Minha ficha ainda não caiu, por isso ainda não chorei. Nem uma lágrima sequer, o que não me surpreende. Aquilo não aconteceu de verdade, aconteceu? Não pode ter acontecido. Talvez eu esteja sonhando. Belisco meu próprio braço, mordendo o lábio forte por conta da dor, mas não acordo. Não é um sonho? Eles realmente se foram? Eles se foram?

Minhas pernas ficam trêmulas, e eu tenho dificuldades de ficar em pé. Deixo-me cair de joelhos no meio da rua, mas nenhum dos vizinhos me olha. Eles já sabem. Todos já sabem, mas eles parecem estar com medo. Acham que é contagioso? Por um acaso pensam que, olhando para mim, vão morrer também? Seria hilário.

Cerro os punhos, repassando as cenas em minha cabeça. O telefonema. Magda chorando e passando o telefone para mamãe, que o deixou cair pouco tempo depois. Magda subindo as escadas, mamãe indo atrás. Eu parado, observando, pegando o fone, pendurado pelo fio enrolado, que acertava o chão repetidamente e atendendo. Eu ouvindo as palavras que nunca pensei que ouviria, que nunca quis ouvir. Eu ficando estático, tudo parecendo estar em câmera lenta. Eu agradecendo a moça do outro lado da linha, e dizendo que iria ligar mais tarde. Eu colocando o fone de volta em seu suporte. Eu sentando-me no chão de frente para a porta, os joelhos encostados no peito, os braços abraçando as pernas. A cabeça apoiada nos braços, olhando, esperando que eles passassem por aquela porta. Contando os segundos, os minutos, as horas.

Eles não passaram pela porta. Nunca mais.

Acordo com o toque irritante de meu celular, e, olhando o visor, levanto-me de supetão. Estou atrasado, mas que novidade, não?

- Alô! – atendo ofegante, subindo as escadas de dois em dois degraus, quase caindo no último.

- Leo? – uma voz grossa pergunta.

- Sou eu. – respondo, esquecendo-me de perguntar quem é que está falando e procurando uma camiseta limpa, pois a que estou usando encheu-se de pelo de gato. E, por falar em gatos, duas bolas de pelos estão amontoadas no meu travesseiro. Folgados.

- Oi. Você cancelou hoje? Ops, desculpa, eu não falei direito. – a voz ri, parecendo envergonhada. – O Dr. Soares me pediu para apresentar a oficina para você hoje, achei que tínhamos hora marcada ou algo assim, então achei estranho você não aparecer. – reconheço a voz de algum lugar, mas não sei de onde. – Enfim, podemos marcar para outro dia, ou...

- Não, não... – o interrompo, colocando a chamada no viva voz e trocando de camiseta. – Eu estou indo, só me atrasei um pouco. – saio do quarto, deixando a porta aberta e desço as escadas, pegando a chave da porta na mesinha e trancando a casa. Papa Léguas e Joaquim sabem como fugir para a rua sem ser pela porta, de qualquer forma. – Vou demorar uns quinze minutos para chegar aí, mais ou menos. – jogo as chaves dentro do bolso e pego o papel onde anotei o endereço do lugar. – Desculpe. – acrescento, sentindo-me culpado.

- Ah, sem problemas. Estarei esperando na entrada. Camisa verde.

- Certo. – vejo o ônibus se aproximando do ponto e corro para alcança-lo. – Até mais. – falo ao telefone, desligando assim que a pessoa do outro lado da linha responde.

Quando você me encontrouRead this story for FREE!