Lauren

41 4 0

Vini estava atrasado, de novo. Era algo que já não me incomodava mais, pois era uma característica dele. Uma das muitas que o tornavam ele mesmo.

Eu sabia dos menores aos maiores detalhes sobre ele. Data de aniversário, manias, apelidos e defeitos, eram apenas algumas coisas que eu sabia. Eu adorava vê-lo ficar mexendo no cabelo quando estava nervoso, ou batucar com a caneta na mesa, apenas para irritar a professora de História. Sabia que ele já havia lido toda a série Harry Potter, mesmo não admitindo, e até que tinha medo de aranhas. Para mim, não eram defeitos ou qualidades, mas características dele.

Um sorriso atravessou meus lábios, quando Vini entrou na cafeteria. Suas bochechas estavam rubras, talvez por causa do vento frio que corria pelas ruas, e o cabelo era uma bagunça fofa, com fios rebeldes que, eu sabia, ele havia desistido de domar.

-Vini! - acenei para ele, que logo veio em minha direção com um sorriso. Agarrei minha xícara de café preto e dei um gole, enquanto ele se sentava à minha frente. Seu olhar sobre mim parecia clínico, como se procurasse por coisas erradas, indícios de que algo estava errado.

-Como está? Hanna me deixou apavorado - comentou, com um sorriso brincalhão. Um atendente veio anotar seu pedido e logo nos deixou sozinhos novamente.

-Eu estou bem. Só cortei o braço, nada de mais - outro gole. Seu café chegou e passamos alguns segundos aproveitando nossas bebidas quentes.

-Essas crises são algo mais - fitei-o, com dúvida. Minhas crises não eram nada mais que uma forma de extravasar minha raiva, pelo menos, era o que eu achava.

-Não são. Fique tranquilo, eu passo em um psicólogo para isso. Antidepressivos, terapia, sessões semanais. Eu estou sob controle - como se eu houvesse dito algo errado, ele elevou a voz, me pegando de surpresa.

-Não, não está, Lauren. Se estivesse sob controle, você não teria ido parar num hospital! - senti minha garganta secar. Apertei a caneca em minhas mãos e olhei em seus olhos, respirando fundo.

-Você não sabe de nada. Não sabe pelo que passei, pelo que passo. Você não tem o direito de me dizer se estou ou não sob controle. E daí se eu fui parar no hospital? Desde quando você se importa? - a última frase saiu em um sussurro. Ele havia me magoado em poucas palavras. Nem tudo o que eu fazia era pensado, às vezes, eu apenas agia, como agora.

-Eu me importo, Lauren. Eu me importo, porquê você é minha amiga.

-"Amiga" - repeti, com um sorrio debochado. Terminei o café e tirei uma nota de dez do bolso, colocando-a sobre a mesa - Eu não me importo com ter, ou não, algum amigo. Quando eu preciso, eles não me apoiam, nunca. Sempre ficam contra mim, como se fosse errado eu pensar que estou bem. Eu sei que não estou, mas não destrua minha esperança.

Me levantei e saí da cafeteria, sentido o vento frio do fim da tarde bagunçar meu cabelo e jogá-lo contra o meu rosto. Fechei minha jaqueta e comecei o caminho de volta para casa, sentindo as primeiras gotas de chuva baterem contra o meu rosto.

Sonho de Açúcar Leia esta história GRATUITAMENTE!