Capítulo 49 - Rafael

296 32 32

  Hoje outra família mora naquela casa. Mas não faz diferença. Eu ainda sei o que aconteceu dentro dela e nem uma nova construção ou uma pintura bonita poderiam apagar as imagens que me rondam quando escurece. Não passo mais em frente a ela. Não a olho mais. Tento não visualiza-la na minha mente. É inútil. Seus contornos soam como flashes sempre que fecho os olhos e eles me destroem por dentro, assim como a lembrança daquele maldito balanço. Eu não acredito mais que nada de ruim aconteceria se eu estivesse sobre ele e se meus pés estivessem no alto, agora eu acredito na vida real. E na vida real coisas ruins não tinham lugar para acontecer.

Destruindo-a um pouco mais

Sou acordado pelo barulho insistente do meu celular apitando. Tateio a cama e pego o aparelho nas mãos olhando para o identificado de chamadas sem reconhecer o número piscando no visor e solto um gemido descontente porque ligações no meio da noite querem dizer apenas uma coisa: Tristan. Tristan metido em problemas. Tristan sendo Tristan. Tristan me irritando e roubando minha horas de sono. Penso seriamente em não lhe atender e ir dormir. Mas estou apenas me enganando porque sei que vou acabar me levantando e me vestindo para concertar as merdas dele como sempre fiz. Suspiro e atendo a ligação pronto para berrar um pouco antes de ceder e me surpreendo ao escutar apenas uma respiração entrecortada do outro lado da linha.

— O que foi dessa vez filho da puta? Eu tenho uma pergunta melhor, você sabe que horas são Tristan? Me deixa dormir, porra! — Não tenho resposta e o arfar se torna mais intenso fazendo com que o sono me abandone imediatamente e meus olhos despertem porque sei quem me ligou e não era o Tristan. — Aurora? — Chamo afastando as cobertas para longe e me erguendo para sair da cama, ainda cambaleante. — Você está bem? — Pergunto gentilmente passando as mãos pelo rosto amassado de sono.

Ela não responde.

Estou apanhando a chave de cima da mesa com pressa quando a chamada é encerrada e antes que eu dê conta estou correndo desesperadamente ao seu encontro vestindo apenas um calça de moletom, sem sapatos e sem carteira, fazendo o possível para ir cada vez mais rápido antes que meu peito exploda de ansiedade e medo. Quando me aproximo da casa de Finn noto que as luzes estão apagadas e não desacelero dando a volta na propriedade para chegar ao escritório, imaginando que seja onde Aurora fica por ser o único cômodo que pode ser acessado sem ter que subir um lance de escadas.

Encontro a janela aberta e quando chego mais perto eu a vejo sentada em sua cadeira de rodas me esperando com as mãos estendidas para que eu a pegue. Ela sabia que eu vinha. Seu rosto parece assombrado e me pergunto que fantasma a visitou nessa noite para que me procurasse em busca de apoio. Não lhe pergunto nada porque não é de questionamentos que minha menina perdida precisa naquele momento apenas estico minhas mãos e a puxo para fora amparando seu corpo contra o meu consolando-a da melhor maneira que posso.

— Eu estou aqui. — Descemos os dois juntos para o chão até que estejamos sentados sobre a grama e Aurora apoie sua bochecha contra a minha respirando com dificuldade ao se ajeitar sobre minhas pernas. Passo uma de minhas mãos a sua volta em um abraço apertado enquanto com a outra mão afago seus cabelos até que escuto sua respiração se normalizar.

— Eu vou te tirar daqui, princesa. — Ela não tem reação quando me ergo trazendo-a junto comigo e caminho noite a dentro levando-a para minha casa, apenas se aninha no meu colo tremendo de frio enquanto a aperto mais forte me arrependendo por não ter pensado em pegar uma blusa antes de sair de casa. — Eu estou aqui. — Repito e Aurora pousa uma de suas palmas no meu peito, sobre meu coração fazendo com que eu seja invadido por um sentimento de proteção que me domina. — O que fizeram para você? — Pergunto friamente e novamente não tenho uma resposta. Aurora esboça uma reação apenas quando chego ao meu jardim ao aponta para a caminhonete com um dedo tremulo em riste.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!