Capítulo 47 - Rafael PARTE I

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Nem todos os finais são ruim, alguns são apenas novos começos.


 Rompimento


No fim da noite depois de uma tarde nos entupindo de sorvete (Aurora) e de Aurora (eu) e de ver minha menina perdida afagar todos os cães um por um por antes de receber de presente uma bolinha que não se importou em fazer voar por horas a fio abandonamos o abrigo rumo à minha casa. Estaciono a caminhonete e me decido por caminhar com Aurora até a casa de Finn para poder passar mais tempo ao seu lado. Ela não parece se importar porque com isso descobriu um novo hobby: olhar curiosamente para dentro da casa das pessoas me escrevendo bilhetinhos sobre como imagina que são suas vidas, rotinas e podres.

Esse bate na esposa. O filho daquele já foi preso. Essa velhinha com certeza afoga filhotinhos, olha a cara de assassina dela. VOCÊ NÃO ME ENGANA SAFADA!

— Jura, a velhinha que adormeceu com os óculos enquanto lia um livro? — Eu olho para a senhora cochilando na cadeira de balanço na varanda e gargalho porque a mente dela me assusta na mesma medida que me diverte, é brilhante! — Eu aposto que ela é inofensiva! Pelo menos mais inofensiva que a menina que não erra um arremesso.

Anos de treinamento querido! Mas tô falando sério, essa mulher é do mal, olha como ela ressona, a maneira como o peito dela desce e sobe, desce e some, desde e sobe é uma coisinha diabólica, Rafael.

— Você tem problemas, Aurora! — Ela concorda contente.

O vento desarruma seus cabelos vermelhos enquanto caminhamos e suas mãos se unirem tremendo de frio. Retiro seu casaco e o coloco sobre seus ombros vendo-a se recostar na cadeira para aproveitar o passeio noturno rabiscando furiosamente enquanto se aninha nele.

Olha o homem batendo naquela porta com um buque de flores, tenho certeza de que está traindo a esposa e que as flores são para a amante!

— Para de ser maluca... — Uma mulher de hobby abre a porta e de longe me parece ter a metade da idade do homem com as flores. Ele sorri timidamente enquanto ela o convida para entrar abrindo um pouco mais o decote depois que ele passa pela porta. — Tudo bem, nesse caso você parece ter mesmo razão. — Dou o braço a torcer. — Mas eu duvido que aquela velhinha afogue gatinhos!

Se eu fosse você, por garantia, não chegaria perto demais dela!

— Vou me lembrar disso, embora não seja um filhotinho. — Gargalho mais enquanto ela cria um podre para cada uma das pessoas que dividem a rua conosco e tenho que admitir que Aurora é muito criativa quando quer e entre gargalhadas e ventanias eu caio mais um pouco de amores pelas partes que ela esconde do mundo e mostra apenas para mim. São as melhores.

— Eu te pego amanhã para irmos para o colégio, tudo bem? — Pergunto quando nos aproximamos da varanda de Finn. Ela assente e morde os lábios se agarrando ao meu casaco como se fosse uma boia salva-vidas. — O que foi? — Ela dá de ombros e eu retiro mais uma folha de papel dobrada do jeans entregando em suas mãos porque a que estava usando já tinha sido preenchida. — O que foi? — Repito com um erguer se sobrancelhas. Uma ordem clara para que escreva a porra de um bilhete porque odeio não saber o que está pensando.

Nosso dia foi perfeito. Menos a parte de tirar um cochilo com os esfregões, claro. Então obrigada, Rafael eu já tinha me esquecido do gosto de sorvete.

— E o que mais? — Porque eu sabia que tinha mais alguma coisa entalado em sua garganta ou para ser mais preciso na ponta de seus dedos. Ela morde novamente os lábios. — Você sabe pode me dizer qualquer coisa, não sabe Aurora? — Ela assente e se inclina sobre a folha apoiando-a no joelho para ter estabilidade para escrever.

Eu não queria que o dia terminasse porque amanhã tudo voltara a ser como era antes.

. — O que vai voltar a ser como era antes?

Você me busca, me abandonar com o Tristan quando chegamos ao colégio e vai se sentar na sua mesa de sempre. Ei, não me olhe assim, não estou julgando. Mesmo que sua namorada seja um ser desprezível eu a entendo. Ela pode cobrar sua atenção porque tem esse direito, assim como você tem direito que querer agradar a Sarah. Mas eu vou ficar bem e não quero mais te causar problemas com Madison.

— Madison está com ciúmes. — Suspiro porque havia me esquecido das coisas que ela havia dito antes de prendê-la no armário. — Sim, ela sabe que minha mãe pediu para que eu me aproximasse de você, mas não foi por isso que eu aceitei te ajudar com as suas lembranças! — Ela morde os lábios e eu me lembro de mais um detalhe daquela conversa estupida. — Quanto a ter passado a noite com Madison, também é mentira. Nosso relacionamento não é mais o mesmo há algumas semanas desde antes que você chegasse, mas parece que ela insiste em te culpar, então falou aquilo para tentar te atingir porque pensa que está rolando alguma coisa entre nós dois. — E está, ambos sabemos e Madison também, bem como as bochechas de Aurora que pegam fogo e os olhos que ela desvia.

— Nada vai mudar amanhã Aurora e eu não vou mais me sentar naquela mesa. — Ela se volta para trás rapidamente gravando seus olhos negros nos meus. Parece surpresa e encantada, mas também em dúvida. — Eu prometo. — Ela assente me dando um sorriso fraco de quem sabe que Madison não ficará feliz. — Eu vou mantê-la longe de você.

Vai demitir o Tristan? Porque eu meio que gosto dele.

— Digamos que Tristan terá sua carga horária reduzida. Mas além de odiar aquela mesa em particular ele também parece gostar de você, então imagino que não vai conseguir se livrar dele com muita facilidade. — Ela abre um sorriso maior ainda e uma pontada de ciúmes me atinge. Tinha que sorri para o Tristan desse jeito? Toda cheia de dentes e covinhas? Não gosto nem um pouco disso e estou a ponto de manda-la parar de sorrir quando a porta da casa de Finn é aberta com um tranco!

— Combinamos as dez horas mocinha! — Grita Finn quando nos avista. — E agora são dez e dez e você não me ligou para avisar que ia se atrasar! Sabe, a cada dia que passa mais você se transforma em uma adolescente normal e eu não gosto nem um pouco disso, Aurora!

Manda ele olhar a merda do celular, Rafael

— Ela quer que você olhe seu celular, Finn. — Ele faz o que pedimos tirando o aparelho do bolso de trás do jeans e olhando para o visor com uma carranca. Em questão de segundos sua fisionomia passa a ser de uma pessoa preocupada e não mais irritada e ele nos encara com muitas perguntas brilhando no olhar.

— Tem 37 ligações perdidas! — Ele empalidece. — Porque você me ligou 37 vezes? — Aurora faz o possível para evitar seu olhar enquanto seus ombros despencam. — O que aconteceu, Encrenca? — Finn resmunga e me encara a espera de que eu responda a pergunta em seu lugar já que ficou claro que Aurora não ia fazê-lo.

— Temos que te contar uma coisa. — Falo sentindo a manga da minha blusa ser sacodida. Aurora me olha com incredulidade e tem uma expressão no rosto de quem adoraria me acertar com um martelo, de preferência para matar. Mas não me importo porque mesmo contra seus protestos silenciosos vou dedurar Jessi e vou gostar de cada maldito segundo.



Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!