Ladrão Toru - parte 5

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          Não é como se ele não pudesse tocá-los, ele simplesmente não deve.

          Porque está morto.

          É um fantasma.

          Um espírito.

          Uma assombração.

          Ele, naturalmente, pode mover objetos com sua força de vontade, assim como fez com os dados, como fez com os veículos, como fez até então; mas como sendo uma assombração, uma anomalia, um fantasma, ele não pode interagir diretamente com objetos, e isso, além de terrível, é amaldiçoador.

          Kirishima, como sendo um fantasma, alguém não-vivo, ele está fadado a não ter contato com a realidade, com os vivos, mas eu, como sendo em parte uma anomalia, uma esquisitice, posso vê-lo tão claramente como vejo Koa, e em contrapartida, isso também é terrível.

          Saber que um amigo meu está morto é horrível, mas saber que além de morto, ele se tornou uma assombração, é ainda pior.

          Inaceitável.

          —... Huh...

          Kirishima se levantou aos poucos, e eu junto dele.

          Ficamos frente a frente, era como uma forma de encarar a realidade, ou pelo menos a forma que eu devia arranjar de encarar essa realidade, ver ele como realmente era, uma anomalia, um ser sobrenatural.

          Neste momento, me pergunto se essa foi a reação que Ivhan teve ao saber que sua irmã havia morrido, ao saber que depois disso ela havia voltado, não como um fantasma realmente, mas como a inveja de fato, me pergunto se é a mesma sensação.

          Se, por um acaso, foi deste modo, se ele sentiu seu arder no peito tanto quanto eu, se ele sentiu vontade de se jogar no chão e chorar até não poder mais, se ele sentiu necessidade de poder esquecer que algum dia conheceu essa pessoa, para então não sentir tanta dor.

          Jamais imaginei que Kirishima significasse tanto para mim. Com certeza eu o consideraria alguém de extrema relevância em minha vida, alguém do qual eu realmente gostei de compartilhar uma parte desta vida.

          Por acaso é como naquele ditado clichê "só sabemos o valor de algo quando o perdemos"? Por acaso é este o momento em que uma frase de nove palavras cobra sentido em sua vida? Quando realmente elas se tornam reais?

          Se for assim, se realmente deve ser assim, então é injusto demais.

          Totalmente injusto.

          Eu não consigo suportar a ideia de aprender algo apenas sofrendo os resultados, é simplesmente incabível.

          — Você se lembra?

          — O quê? — perguntou Kirishima, com espanto.

          Minha pergunta nada mais era do que uma curiosidade, algo que, por algum motivo, eu queria saber.

          — Quero saber se você se lembra de como morreu. Assombrações geralmente não se recordam de como morrem, apenas quando refazem algo que relembre a mesma situação.

          — Eu... não consigo me lembrar de nada.

          Não serve.

          — O que disse?

          — Nada, apenas pensei alto.

          Respirei um pouco antes de perguntar outra coisa.

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