Capítulo 15.

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Sem você, eu sou apenas uma música triste.

- O que é isso? – pergunto de supetão, encarando a primeira pintura que vejo. Uma mancha azulada jogada no que parece ser um chão de tijolo rosa.

- Um quadro. – David responde, sorridente. Não consigo evitar um sorriso também. – Alguém deitado.

- Por quê? Quero dizer, de onde veio a ideia? – pergunto, curioso.

- Conhece a banda Snow Patrol? – ele questiona, colocando a travessa numa mesa e empurrando lápis e pinceis para o lado.

- Sim. Chasing Cars? – sorrio, me lembrando do vídeo clipe da música, e de como eu costumava vê-lo quando mais novo.

- É! – David exclama, parecendo surpreso. – Uau, não conheço ninguém que gosta da banda.

- Bom, agora conhece. – eu falo, observando o próximo quadro. É o formato perfeito de um olho, mas os cílios são árvores, e, dentro da pupila, está o que parece ser um jardim, todo colorido e cheio de flores. – E este? – olho para David, mas ele não responde, só levanta uma sobrancelha.

- Forget what we're told? – ele fala, e, mesmo sem ter cantado a melodia, eu sei qual música é.

- Chasing Cars. – ele sorri, passando a mão pelos cabelos.

- É uma música linda. E inspiradora.

- Percebe-se... – eu murmuro, prestando a atenção em uma pintura em particular. Inclino a cabeça para tentar entende-la melhor, mas continuo sem conseguir desvendar seu significado.

- Esta ainda não está pronta. – a voz de David me faz olhar para trás. – É o único que eu não consegui terminar.

- Por quê? – pergunto, não me importando se estou questionando demais ou não.

- Não sei. Só não consegui terminar. – David se aproxima, observando o quadro. E eu o observo. – Ainda. A história dessa pintura ainda não acabou. – ele me olha de esguelha, tentando parecer sério, mas um dos cantos de sua boca se ergue levemente, denunciando sua diversão. – Assim como o seu! – ele exclama de repente, indo em direção à uma montanha de papéis, cadernos e objetos de pintura. – Podemos? – David pergunta, erguendo seu caderno de desenhos.

- Eu não vim aqui para... Ser desenhado. – ponho as mãos nos bolsos, tentando pensar numa desculpa melhor.

- Não. Você veio aqui para me trazer cookies. – David puxa uma cadeira para mim e se senta num pufe verde, respingado de todas as cores possíveis. – E eu digo que é hora de finalizar o seu retrato. Não aceito não como resposta. – levanta uma sobrancelha, desafiando-me a dizer não.

Soltando um suspiro de derrota, me jogo na cadeira e espero David trazer uma mesinha para que eu possa apoiar o braço, na posição em que fiquei na primeira vez.

- O seu braço estava mais dobrado. – David murmura, arrumando-me do jeito que acha melhor, de acordo com o rascunho em suas mãos. Estico o pescoço para espiar, mas ele fecha o caderno rapidamente, enviando-me um olhar feroz.

- Nada de espiar! – faz cara de bravo, mas vejo que está tentando não rir.

- Foi mal. – resmungo, fingindo estar magoado.

- Olhe para cima. – David levanta meu queixo com os dedos, e eu imito a postura a qual havia feito antes. – Isso, agora fique assim. Não se mexa. – David fala, e começa a rabiscar.

Confuso, tudo está muito confuso! David me ouviu e viu surtando, e não quis explicações. Ou ele está se remoendo de curiosidade, mas não quer me perturbar mais do que o necessário, ou ele realmente não se importa. Mas então, por que pulou a bendita janela? Ele pode ser louco, ou um bom samaritano, quem sabe? Não vou perguntar nada, não quero tocar no assunto.

Respiro fundo e tento não me mexer, mas meu pé está formigando e eu quero muito rir. David está com uma ruguinha de concentração na testa, desenha rapidamente, as mãos ágeis trabalhando enquanto seus olhos dividem o tempo entre o caderno e eu, que estou parado há mais ou menos meia hora, os pensamentos à mil.

Por que diabos eu estou aqui, afinal? Não podia mandar uma mensagem, ou ligar? Tinha mesmo que vir até a casa de David para me explicar? E eu nem me expliquei! Ele não quis ouvir! Mas, se quisesse, eu teria contado tudo? Teria falado sobre as reuniões, a terapia, os remédios, os acidentes? Acidentes. É assim que chamamos, acidentes.

Momentos impulsivos, eu diria. Eu não estava nos meus melhores dias, não sabia o que o dia seguinte traria, não sabia o que aconteceria em dez segundos, dois minutos, uma hora. Não sabia que, no dia seguinte, algo de bom poderia acontecer. Não sabia de nada disso e, ainda assim, escolhi não saber. Será que vou escolher não saber mais vezes? E, será que, em alguma dessas vezes, eu vou, finalmente, não saber?

- Pode se mexer agora. – a voz cansada de David me tira de meu torpor, e só então eu percebo que a formigação parou. Finalmente! – Vamos tirar uma pausa. – ele fala, espreguiçando-se.

- Falta muito? – pergunto, esticando as pernas e dobrando os braços, que estavam começando a ficar dormentes.

- Por que, não quer mais ver a minha cara? – David pergunta, sorrindo, mas há um pouco de preocupação em seus olhos.

- Não é isso. Estou curioso para saber como vai ficar. – respondo, estalando os dedos.

- Falta pouco. – David fecha o caderno e joga os lápis que estava usando na mesa grande ao lado. – Só preciso finalizar os seus olhos. – ele fala, jogando-se no pufe novamente. – Vai ser a parte mais difícil. – dobra as mãos sobre a barriga, pensativo.

- Por quê? – pergunto, esticando o braço para roubar um cookie da travessa.

- Porque eu nunca vi um azul tão intenso. Vou precisar misturar várias cores para chegar à tonalidade certa. Garanto que vai ficar incrível. – David parece pensativo. – Vai ser o meu melhor desenho.

- Tenho certeza de que vai. – concordo, mas David não está prestando a atenção. Ele olha fixamente para o quadro que não finalizou. O da história incompleta. Ele então pisca, e seu olhar fosco se vai tão rapidamente quanto surgiu.

Ambos nos assustamos quando o celular de David começa a tocar. Ele põe a mão sobre o peito, dando risada, e eu faço o mesmo, me recuperando do susto.

David aperta um botão, e a tela do celular se apaga.

- Alarme. – ele fala.

- Ah. – me toco que David provavelmente tem aula hoje, e eu aqui, ocupando seu tempo. – Você tem aula? – pergunto, já sabendo a resposta.

- Sim, só tive uma folga de manhã. Aulas a tarde toda. – ele se espreguiça mais uma vez, e eu me levanto.

- Então eu vou indo. – David também se levanta. – Tenho que... Fazer umas coisas. – lembro da promessa que fiz à mamãe, e lembro também que devo encontrar alguém hoje para falar sobre minha participação na oficina.

-Hum, tudo bem. – ele responde, acompanhando-me até a porta da frente. Passandopelo quintal, vejo um borrão passando por entre as flores, uma mancha branca.Ignoro e vou para casa, chutando pedrinhas no caminho e evitando olhar paracima. Ando de cabeça baixa até chegar na rua onde vivo, e só volto a erguer oolhar quando fecho a porta, seguro dentro da residência. Solto a respiração quenem sabia que estava segurando e me jogo no sofá, cansado.

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