Capítulo 43 - Rafael PARTE II

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  — Precisamos conversar, Rafael. — Dispara minha mãe assim que cruzo o limite da porta do banheiro e entro novamente no quarto. Pisco para afugentar o sono e a olho. Ela está sentada em minha cama já feita com as pernas cruzas e aquele olhar. Um olhar que me diz que não está nem um pouco feliz comigo e está a ponto de enumerar suas razões. — Na verdade estou tentando falar com você a dias e parece que você nunca está em casa.

E não estou.

Dormi no abrigo para fugir dela a semana inteira.

— Estou ouvindo, mãe. Mas não tenho muito tempo, preciso resolver algumas coisas no trabalho. — Murmuro já sabendo de antemão do que se trata. Não me sento, apenas continuo me secando e passo a procurar por uma roupa limpa no guarda roupas desejando que ao menos tivesse me trazido o café da manhã já que veio me encher o saco com aquele assunto. — Vira pra lá, por favor. — Peço antes de arrancar a toalha. Ela me olha feio e mesmo assim faz o que lhe pedi.

— Fui vê-la semana passada. — Conta para a parede de forma imponente sabendo que não preciso de um nome para entender quem ou o que para ser mais preciso minha mãe foi ver. —Ela está em uma cadeira de rodas, Rafael. — Desabafa em um sussurro mortificado. — Não fala e nem aceita que ninguém lhe toque e para ser bem sincera eu nem mesmo sei se escutou o que lhe falei, Aurora apenas ficou sentada olhando para o colo sem esboçar nenhuma reação. — Então a imponência desmorona como eu bem sabia que aconteceria quando visse as condições em que ela se encontrava. — Não consegui encontrar aquela menininha que eu ajudei a criar em nenhum lugar. — Funga. — É como se aquela criança tivesse desaparecido também.

— Eu sei. — Suspiro me dando conta tarde mais de que não respondi apenas em meus pensamentos. Minha mãe arfa e se vira para me encarar de maneira surpresa. Não sei que sentimento a domina mais: a confusão ou felicidade ao fazer uma pilha de suposições equivocadas a partir da minha resposta. — Eu a vejo colégio, mãe. — Explico antes que possa dizer o quanto era maravilhoso eu ter mudado de ideia e ter ido vê-la também.

— Então você já sabia? — assinto terminando de vestir a camiseta. — E você tentou falar com ela? — Na verdade eu fiz bem mais do que isso. Mas minha mãe não precisa saber dos detalhes. Nego pegando a mochila deixada sobre a cadeira e enfiando alguns livros jogados em cima da mesa em seu interior. — Porque? Porque você não falou com ela, Rafael?

O julgamento que permeia sua pergunta faz meu sangue ferver porque minha mãe fala como se eu fosse obrigado a engolir tudo o que aconteceu com um maldito sorriso no rosto. Quem minha mãe pensa que é para me julgar? Uma pessoa que não sabe como você se sente, diz uma voz dentro da minha mente.

— Porque eu não quis, mãe! — Respondo de modo firme, firme demais. Seus lábios tremem involuntariamente fazendo com que eu me arrependa de ter sido tão duro. Mas agora que comecei não consigo parar. — Eu não falei e nem vou falar, porque Aurora não faz mais parte da minha vida e antes que você tente me convencer do contrário quero que saiba que não vou mudar de ideia.

— Mas porque, Rafael? — Porque ela fode com a porra minha cabeça! — Você a amava tanto meu filho. — Implora com o olhar. — O que aconteceu com todo aquele amor que unia vocês dois? — Pergunta com os olhos se enchendo de água. Ela realmente não entende, não é? Ela não entende que não éramos dois e sim três e é isso que mais me machuca, por alguns dias ter me esquecido também.

O amor que eu tinha por Aurora ainda está em algum lugar dentro de mim acordando de um longo sono eu o sinto de espreguiçar e ganhar terreno me comprimindo de dentro para fora perturbador ao ponto eu sentir como se fosse me implodir. Mas esse amor não é mais como era antes, não é infantil e inocente. Ele é maior, mais poderosos e infinitamente mais perturbador porque não importa o quanto eu tente não enxergo mais uma simples garotinha e sim uma linda garota crescida de cabelos vermelhos que faz o meu coração bater mais forte, minhas mãos suarem e minhas entranhas se contorcerem.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!