Capítulo 30 - Aurora PARTE II

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Audrey dirige melhor do que Finn e isso não compensa o fato de que está me levando sorridente e animada para o portal do Inferno enquanto assobia uma música qualquer, principalmente porque não preciso ficar alerta com a possibilidade de acabarmos abraçando uma árvore durante o trajeto então estou livre para pensar em quantas maneiras esse dia pode dar errado. Me agarro ao banco do carro pensando se conseguiria me fundir a ele e em quanto tempo demoraria para que ela conseguisse me arrancar a força de sua proteção quando constato que as maneiras são infinitas.

— Chegamos meninas. — Penso em um milhão de desculpas para não sair do carro. Mas no curto período de tempo que leva para Audrey sair de dentro dele e abrir minha porta empurrando a cadeira de rodas para perto como viu Finn fazer descubro que não consigo ter nenhuma ideia que não envolva implorar e chorar, e definitivamente não sou o tipo de garota que faça alguma das duas, então eu saio.

— Lembre-se Jessi, cuide bem dela. — Reafirma depois de me colocar no início do caminho de paralelepípedos que fica em meio a um bosque de eucaliptos de frente para o prédio de tijolinhos vermelhos mais horripilante que eu já havia contemplado. Sua fachada simplista era elegante e envelhecida e embora fosse belíssima fazia com que a construção tivesse um ar de casarão mau assombrado. Simplesmente o lugar perfeito para um assassinato em massa com um garfo, penso perversamente.

O que eu posso fazer? Eu gosto de bosques de Eucaliptos.

— Pego vocês mais tarde! — Berra correndo de maneira graciosa para a rua enquanto sua filha acena e sorri docemente em concordância. Nesse momento meu coração bate mais forte porque me dou conta de que realmente estou sendo largada sob os cuidados de uma coisinha de atitudes duvidosas e nada confiáveis em um lugar desconhecido apinhado de pessoas da minha idade que eu também consideraria como nada confiáveis.

Eu acompanho Audrey com o olhar e escuto o motor roncar vendo-a partir e aos poucos os sons ao redor passam a ganhar significância e mesmo assim ainda conseguem ser menos audíveis do que as batidas frenéticas do meu coração ritmado. Pessoas passam por mim me agraciando com olhares enviesados de curiosidade fazendo com que meu coração se agite ainda mais dentro do peito.

Me sinto sentada em cima de um outdoor que diz: Olhem como sou uma gracinha. Estou pensando seriamente em abrir a mochila e escrever um plaquinha de aceita-se doações para deixar aos meus pés e lucrar um pouco com a minha desgraça, para variar. Isso com certeza faria Jessi ter um ataque histérico! E por falar na safada percebo que ela está muito quieta o que me faz olhar ao redor. Mas Jessi não está em parte alguma, como eu bem imaginei, levou um mero piscar de cílios e alguns minutos de reflexões internas inúteis para que aquela sacana me abandonasse.

Nesse momento eu me sinto à beira de um ataque de pânico e isso é inédito porque normalmente sou eu quem induz as pessoas a terem um. Meu coração somente se acalma depois que lembro a mim mesma que não há nada de ruim que possa acontecer que seja pior do que já me aconteceu.

Você já está calejada, minha filha. Larga a mão de ser covarde, me repreendo.

Respiro fundo e passo a analisar minhas opções. Mas como sempre não tenho um leque delas, apenas duas: Procurar pela garota que eu vou sufocar com o travesseiro enquanto dorme assim que eu descobrir como subir as malditas escadas em duas rodas ou simplesmente me prostrar ao lado do meio fio e esperar dar o horário de Audrey nos buscar. E embora seja essa a opção que mais me agrada tenho plena consciência que seria patético demais, até mesmo para mim. Eu posso ter uma infinidade de defeitos, mas garanto que a falta de determinação está longe de ser um deles, sendo assim não vou permitir que aquela sacana insignificante, intragável e fujona saia por cima dessa, por mais que eu queira vomitar somente de pensar em desfilar em frente a essas pessoas.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!