Capítulo 46 - Rafael - PARTE I

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Nem todas as pessoas que adentram nossas vidas fazem marcas em nossas almas. Algumas nem tentam por estarem apenas de passagem e outras simplesmente não a alcançam. E tem aquelas que não permitimos que cheguem perto demais porque não valem o esforço de buscar uma escada.

O que todas essas pessoas tem em comum?

Elas sãosubstituíveis. 

Todos os sabores de sorvete compram um sorriso teu?

— Ela está bem? — Pergunto parando à frente da carteira de Tristan. Sua mão para de se mover e o lápis é posto de qualquer jeito em cima do desenho pela metade enquanto seus olhos se erguem mirando os meus com incredulidade. — Eu sei que é uma pergunta idiota, mas eu preciso saber. — Ele me ignora e mesmo assim não tira seus olhos dos meus. — Ela está bem ou não, Tristan?

— Depende de quem você está perguntando. — Murmura contrariado. — Sua namorada ou a garota que sua namorada arrasou? — Rebate com sarcasmo.

Ele parece realmente irritado pelo que Madison fez e não me sinto diferente. Mas depois de lhe arrastar para o lado de fora e lhe proibir de se quer ousar chegar perto de Aurora outro sentimento tomou o lugar da ira e em nada se pareceu com piedade por estar diante de suas lágrimas e apelos por estar sendo posta de lado. Foi a incredulidade. Aurora chegou como quem não queria nada e em um piscar de olhos me tomou tudo. Isso inclui todas as certezas que eu possuía quanto a cada um dos aspectos da minha vida e um deles era o fato de namorar Madison Hanoover a mais de um ano sem sentir nenhum tipo de afeto por ela.

— Você sabe de que estou falando. — Perco a paciência.

— Ela não fala e isso meio que não me permite ter muita certeza. — Murmura ironicamente. — Mas se formos julgar pelo detalhe de que a Maluquete não é do tipo que se esconde em banheiros e decidiu fazer isso hoje eu te diria que não. Ela não está bem. — Responde parecendo incomodado e posso ver o julgamento em seu olhar.

— Porque você a deixou sozinha? — Nunca. NUNCA confie nada ao Tristan. Porque eu não aprendo? — Esse não era o combinado!

— Também não combinamos de deixar Madison ser uma vadia, não é? E aconteceu mesmo assim! — Touché. Ele tinha razão. Eu havia me esquecido completamente da minha namorada desde que Aurora parou dentro da minha vida e dos meus pensamentos e deveria ter imaginado que ser negligente resultaria em uma cena mais cedo ou mais tarde porque esse tipo de comportamento vindo dela não é nenhuma surpresa. Surpresa foi eu e Tristan termos nos importado.

Madison tem muitas qualidades, mas sempre foi uma pessoa fútil que sente prazer em humilhar as pessoas que imagina estarem abaixo de seu patamar. Imagino que depois de um tempo de convivência com alguém tão medíocre quando Madison as pessoas se acostumam a pensar que suas atitudes pouco louváveis fazem parte de sua personalidade ao ponto de não chocarem mais e por mais que em muitas ocasiões eu abominasse sua maneira de agir deixei de me importar.

— Bom, mas quando Madison não é uma vadia, não é? — Pergunta Tristan com sarcasmo. Esse era o momento perfeito para que eu me ofendesse por minha namorada. Isso, claro, se Madison fosse importante a esse ponto. Mas não era, não tanto quanto a menina escondida no banheiro.

— Você não podia tê-la deixado sozinha. — Recrimino novamente.

— Ela sabe se virar, Rafael! — Eu findo meu olhar e Tristan suspira me contando a verdade. — Eu tentei entrar depois de alguns minutos e Aurora me acertou com um rolo de papel toalha, isso fora o bilhete dizendo que não queria companhia e que era suficientemente capaz de encontrar a sala de aula por conta própria porque embora seja aleijada não é ignorante ao ponto de não conseguir gravar o caminho ou dar na minha cara se tiver vontade.

— Eu vou atrás dela! — Lhe dou as costas.

— Não você não vai, ela quer ficar sozinha! Sabe o que é interessante? Essa não é a primeira vez que zombam dela e eu nunca a vi reagir assim. — diz segurando minha camiseta para que eu não saia do lugar. — O que está rolando entre vocês dois, heim? Primeiro você faz uma chantagem emocional barata listando todos os favores que eu te devo desde que tínhamos sete anos de idade para que eu cuide dela porque não quer chegar perto da menina de maneira alguma e eu aceito porque a lista é mesmo enorme. Mas depois, um belo dia você lhe dá uma carona, se senta na nossa mesa, divide sua comida e não consegue tirar os olhos dela! — Olho para o chão sem saber como responder. — Que porra, está acontecendo, Rafael?

— Eu não sei. — Dou de ombros porque não sei mesmo. — Eu só não consigo parar de olhar... — a frase morre nos meus lábios porque Tommy nos interrompe com mais um enxurrada de perguntas que não sei como responder.

— O que está acontecendo com você, Rafael? — Tristan ergue as sobrancelhas e cruza os braços aguardando que Tommy termine o trabalho de me interrogar. — Você passou a semana inteira calado e distante e hoje decidiu fazer as pazes com sua amiguinha de infância do nada?

— Era justamente essa a minha dúvida, Tommy. — Se intromete Tristan.

— Você não imaginou nem por um minuto que Madison iria se irritar em te ver com a Aurora e descontar sua frustração na menina sem piedade nenhuma? Ela já está uma fera porque você parece sempre pronto para defender a Aurora e é nítido que passou a agir de um jeito estranho desde que ela chegou, principalmente com a Madison.

— Não, eu não pensei em nada. — Dou de ombros. — Eu me esqueci da Madison para ser sincero.

— Você se esqueceu da sua namorada? — Pergunta Tommy chocado. Será que ele faz alguma ideia que nem todo relacionamento é tão perfeito quanto o dele? Imagino que não! Eu dou de ombros novamente porque não me sobrou muito tempo para pensar em mais nada além nas mãos de uma certa menina presa as minhas e em como aquele gesto me triou do abismo aonde eu despenco a anos.

— Rafa a gente sabe que você não ama a Madison, todo mundo sabe, incluindo a Madison! — Se intromete Tristan novamente. — Nós só não sabemos porque você ainda não deu um pé na bunda dela.

Essa era uma boa pergunta. Madison atendia todas as minhas necessidades físicas e mentais e além disso era boa em manter todas as outras concorrentes afastadas de mim e em me tornar preenchido por parcos momentos. Estar junto dela era conveniente, simples e descomplicado. Pelo menos até Aurora complicar tudo ao me mostrar que não preciso me contentar com migalhas se posso sentir todos os sentimentos intensamente e por completo porque ao seu lado eu nunca me sentia vazio. Não havia subterfúgios e nem remendos. Mas também nada era simples.

— Tristan é um babaca sem escrúpulos mas tem razão nessa. Se Madison é irrelevante ao ponto de ser esquecida porque você não deu um fim nisso antes?

— Por nunca tive um motivo antes — friso. — Mas agora eu tenho.

— Me deixa adivinhar? — Pede Tristan. — Seu motivo sem longos e embaraçados cabelos vermelhos olhos negros e um mau humor do cão?! Também anda por ai em duas rodas e nas horas livres bate em enfermeiras indefesas, acertei?

— Na mosca! — Não tinha o porquê esconder deles a verdade. Ela está dentro dos meus olhos toda vez que eu olho para Aurora, era uma questão de tempo até que descobrissem sozinhos.

— Ah, pelo amor de Deus, Rafael! — Ralha Tommy. — Então as neuras da Madison tem mesmo sentido porque está acontecendo alguma coisa entre vocês!

— Não aconteceu nada... — Ele me corta tirando a palavra na minha boca:

Ainda. — Concordo com um aceno. — Então de um fim ao seu namoro antes que Madison saia ainda mais machucada desse relacionamento.

Ele fala como se ela tivesse sentimentos. Ingênuo.

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Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!