Capítulo 14.

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Sem você, eu me sinto rasgado

Como um barco de vela na tempestade

Respirando fundo uma última vez, tomo coragem e aperto a campainha, me arrependendo no mesmo instante. A porta demora para ser atendida, então já estou na metade do caminho para longe da casa quando ouço alguém abri-la. Olho receoso para trás, e uma sensação estranha de alivio e medo toma conta de mim.

- Leo. – David parece surpreso ao me ver, talvez porque não esperasse me ver depois do que aconteceu. Não perguntei nada à mamãe ou à Magda, eu simplesmente sabia que era David comigo naquele dia, e sabia também que ele merecia uma resposta. Segurando a travessa com força, tento não reparar nas roupas que David está usando, sem sucesso. Um pijama branco que parece ter sido vítima num jogo de paintball, pois está todo coberto de respingos de tinta de todas as cores possíveis.

- O que faz aqui? – ele pergunta, fechando a porta atrás de si. Todo o discurso ensaiado que fiz desde que saí de casa até chegar aqui simplesmente evaporou. Não me lembro nem por onde deveria começar, então demoro para responde-lo.

- Bom, eu... Trouxe alguns cookies para você. – estendo a travessa. – Foi Magda quem os fez. Ela queria te agradecer. – limpo a garganta, sentindo que foi um erro insistir em vir até aqui, e um erro maior ainda mentir em nome de Magda. Que belo projeto que recuperação você é, Leo.

- Ah, não precisava. – ele franze as sobrancelhas, aceitando a travessa.

- E... – eu começo, mas não consigo encará-lo nos olhos. – Eu queria falar com você... Se não estiver muito ocupado. – acrescento rapidamente, olhando-o de soslaio.

- Não, não estou. – ele fala, mas parece hesitar. Será que está assustado? Será que está com medo de mim? – Entra aí. – David abre a porta e dá um passo para o lado, esperando que eu entre, e eu entro. Olho ao redor, observando a mobília e a decoração assim que piso no lado de dentro, e sorrio ao ver as fotos de David (eu imagino que sejam dele) espalhadas pelo cômodo em pequenos porta-retratos.

- Você está bem? – ouço a voz de David e me viro de frente para ele. – Quer dizer... Naquele dia você...

- Estou bem. – o corto, mas ele não parece acreditar em mim. – Estou melhor.

- Então... Você queria falar comigo? – David passa a mão nos cabelos, o rosto transparecendo curiosidade.

- É, eu... – limpo a garganta. – Era você no meu quarto, não era? – pergunto, mesmo sabendo a resposta.

- Sim, era eu. – David responde, um tanto envergonhado. – Eu achei estranho você não aparecer no café e... – Droga! Eu tinha me esquecido completamente daquilo! David me enviara uma mensagem tarde da noite, e eu devo ter respondido sem nem prestar a atenção, grogue de sono. Mas por que não me lembro disso? - ...fui até a sua casa. Sua mãe e sua irmã estavam desesperadas, você nos deu um baita de um susto, Leo. – ele força um sorriso.

- É, eu sei. – baixo os olhos para o chão, criando coragem para agradecê-lo e para explicar o que havia acontecido. – Obrigado, David, por estar lá.

Ele me encara por alguns segundos, a expressão indecifrável. O que ele estaria pensando? O que estava sentindo?

Por fim, David sorri fracamente, põe as mãos nos bolsos do pijama colorido e responde:

- Por nada, Leo, sempre que precisar. E – ele desvia os olhos dos meus, encarando um ponto atrás de minha cabeça, mas volta a me encarar. – Você não precisa se explicar, de verdade.

- Mas você... – tento insistir, mas ele recusa novamente.

- Leo! – David se aproxima tanto de mim que posso ver a íris dos seus olhos. Que olhos lindos! – Você não precisa me contar nada agora, se não quiser, de verdade. Eu posso esperar. – ele aperta meus ombros, e eu sorrio. – Quer conhecer o meu ateliê? – seus olhos brilham de excitação, e eu concordo, curioso para ver como e onde David faz suas obras de arte. Ele pega a travessa de cookies da mesinha onde a tinha colocado e me pede para segui-lo até os fundos da casa.

Passamos por um quintal bem cuidado e entramos num cômodo à parte da casa, nos fundos. Uma garagem, acredito eu. David vai na frente e abre a porta, deixando-me passar primeiro. Meus olhos logo são atraídos pelos dezenas de desenhos pendurados nas paredes, pelos quadros em cavaletes e pela sujeira colorida no chão. Tudo é incrível! Há uma janela de tamanho médio em uma das paredes, e a vista dá diretamente para o parque da cidade. Outra janela encontra-se no teto, e imagino que deva ser incrível observar as estrelas de noite, ou até mesmo a chuva. Alguns aventais estão pendurados em cabides ao lado da porta, e o cômodo possui três mesas; uma grande suportando dezenas de papéis e apetrechos, uma pequena com cds, e uma vazia, ao lado de três pufes. Uma bicicleta está apoiada ao lado de uma estante recheada de potes de tintas, e uma mini geladeira encontra-se no lado oposto. Uau! O ateliê de David é incrível, e seus olhos brilham de alegria quando eu digo as palavras em voz alta. É mesmo muito incrível!

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