13- A ENCOMENDA

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  Brasil, Floresta Amazônica, ano de 2009

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Brasil, Floresta Amazônica, ano de 2009.

Se quisermos progredir, não devemos repetir a história, mas sim, fazer uma história nova.

Mahatma Gandhi


Então me veio à imagem de índios, todos nus, formando um grande círculo. No centro, alguns desses índios - homens, mulheres e crianças - dançavam com entusiasmo. Scarface estava ao meu lado. Estávamos nus também. A dança era liderada pelo mesmo índio que encontrei na isolada casa em meio ao Cerrado, pajé Kaluanã, porém, estava mais jovem. Uma cabaça passava de pessoa para pessoa, que bebiam com alegria o líquido. Sempre que a cabaça chegava até mim eu bebia um gole discreto, como havia sido indicado pelo pajé, o gosto era horrível. Scarface também bebia. A cabaça retornou várias vezes e bebemos até não restar nada.

Os sons começaram a se tornar estranhos e entusiasmantes. O canto do índio da cabana se tornou uma melodia assombrosa de tão bela. Sem ter muito controle de minhas ações me levantei e iniciei uma dança estranha, mais parecida com uma convulsão. Sentia-me um boneco de ventríloquo, pois não governava meu corpo, apenas sentia movimentos involuntários. Pude ver que Scarface vomitava em um canto. Fiquei girando e batendo os pés no chão e vi as ocas da aldeia brilharem intensamente. Ao fundo, a floresta parecia crescer e sombrear cada vez mais a aldeia. De repente, não havia mais ninguém sentado, todos dançavam desordenadamente. As imagens e os sons começaram a ficar engraçados. Tudo era tão hilário que um gargalhar incessante iniciou-se. As pessoas dançavam e vibravam como cordas de um instrumento, ficando disformes e multiplicadas. Sons diferentes saíam de cada pessoa. O chão, as árvores, a poeira no ar, tudo a minha volta parecia tremer. A melodia se ampliou vindo de tudo ao redor. A música era tão esplêndida que chorei de alegria. Pedaços das vibrações se desprendiam de tudo, formando membranas que voavam para todos os lados. Aos poucos essas membranas se inflaram formando bolhas transluzentes, assemelhando-se as de sabão. Algumas bolhas se expandiram até explodirem, outras se dividiram, outras se tocaram unificando-se. Tiveram ainda aquelas que, ao se tocarem, provocaram o aparecimento de bolhas filhotes. Tantas se formaram que ocuparam quase todo o espaço que minha vista alcançava. Algumas eram vazias, outras possuíam explosões internas, formando névoas incandescentes. Para minha surpresa, dentro de várias bolhas, podia-se ver a mesma aldeia em que eu estava, com as mesmas pessoas que dançavam. Notei, porém, pequenas diferenças de bolha para bolha, nas danças, na iluminação e na floração das árvores. Em alguns casos via as mesmas pessoas dançarem, mas em ambientes diferentes, em um deserto, em uma cidade.... De repente, as bolhas começaram a se organizar no espaço. Formaram um desenho. De início foi difícil discernir, mas formou-se um rosto, enigmático. Senti que era a face de Deus. Naquele instante, me lembro, tive um grande vislumbre. Entendi o funcionamento do universo, tudo era simples e surpreendente. Tudo explicado. Durou pouco, perdi a conexão, mas sei que tive as respostas e que estão dentro de mim, escondidas, mais do que as memórias que perdi. Senti uma energia forte e fiquei me debatendo no chão, sujando meu corpo inteiro de barro. Uma chuva forte começou a cair com gotas que despencavam como que em câmera lenta. Explodiam no solo, batiam nas folhas das árvores, deslizavam pelos troncos ou, outras, se infiltravam na serapilheira. Tudo escureceu e um silêncio absoluto se fez.

Uma Encomenda para um Novo MundoLeia esta história GRATUITAMENTE!