12- VELHOS AMIGOS

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Brasil, Floresta Amazônica, ano de 2008

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Brasil, Floresta Amazônica, ano de 2008.   

Para além das ideias de certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá.

Rumi

A overdose de gosma verde me levou a um turbilhão de lembranças, que não seguiram uma cronologia. Tudo muito vívido. Eu podia saber exatamente onde aquelas memórias estavam no espaço-tempo, como se estivesse encarnado em mim mesmo. Não era como aqueles sonhos que você sabe que está sonhando. Era profundo, tinha cheiro, tato, cores e sons, tudo mais real que a própria realidade. Que substâncias faziam aquilo em meu cérebro? Fui parar no ano de 2008, jovem de volta, com 25 anos.

Eu sempre adorei documentários sobre vida selvagem e as cenas sobrevoando a floresta Amazônica sempre me fizeram suspirar. Por isso quando me vi sentado na beirada daquele helicóptero de quinta categoria, sentindo o vento, o cheiro de mato molhado e observando aquela massa verde de vida se estender para além do horizonte, uma alegria infantil me dominou. Minhas bochechas chegaram a doer de tanto que eu sorri. Passamos por áreas planas, onde a floresta parecia um tapete; regiões montanhosas, onde me arrepiei de ver até onde o mundo selvagem podia se estender; e sobre rios que perfaziam um labirinto de conexões. Existindo Deus, certamente, aquela era uma de suas melhores obras. O tempo, a chuva, os ventos, as evoluções genéticas, o trabalho dos organismos vivos, o relevo, os terremotos, as inundações, as glaciações, os grandes aquecimentos do clima, modificaram aquela região por mais de quatro bilhões de anos para chegarmos a ter uma floresta grandiosa e surpreendente, em 2008 dominando quase metade do território do Brasil. Olhos leigos poderiam não perceber, mas tudo aquilo não era apenas uma floresta, eram várias. Na Amazônia a composição de espécies tanto da flora como da fauna ficam variando, seguindo as condições do que não tem vida. As rochas, o solo, a água e o clima como um todo, comandam o balé da vida. Tudo conectado. A base da vida é a morte. Meus olhos presenciavam um belo trecho do único livro realmente escrito por Deus, a natureza. Segredos bilhenares e instruções de como funciona a vida estavam entremeados naquele verde. Desejava descobrir alguns deles.

O helicóptero desceu em uma pequena clareira, onde algumas construções e barracas podiam ser avistadas. Desci da máquina com minha mochila. Quase não conseguia aguentar o peso da minha bagagem. Tudo que eu tinha estava entulhado e fechado dentro daqueles zíperes. Um soldado me acenou para que eu o acompanhasse. O vento das hélices do helicóptero ainda levantava poeira. Acenei para o piloto me despedindo e segui o soldado. Entramos em uma construção que mal podia se ver do alto, feita de vários containers ligados de muitas maneiras e em dois andares. Passamos por uma portinha discreta e seguimos por um longo corredor. Conversas, gargalhadas e cheiro de suor enchiam a passagem. O soldado abriu uma porta dos vários quartos que existiam no local. Era um quarto pequeno com beliche, escrivaninha e armário.

— Por favor, deixe sua bagagem aqui.

Segui as ordens deixando o peso que carregava nas costas em cima do beliche. Logo após continuei seguindo o soldado pelos corredores. O barulho e os cheiros diminuíram. Muitas portas continham placas com nomes de laboratórios e doutores. Chegamos a uma porta indicando: Tenente Dante Oliveira – Chefe de Logística. O soldado deu duas leves batidas na porta e uma voz gritou: "pode entrar". A porta foi aberta.

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