11- ENTRANDO NA COMUNIDADE

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Brasil, Estrada, ano de 2333

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Brasil, Estrada, ano de 2333.

Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto.

Charles Bukowski

Achei um abrigo em meio essa terra árida, uma velha casinha abandonada, que fica próxima da estrada. Despejei muita água pela goela seca, comi barrinhas de astronauta e relaxei. Lá fora um vento frio levanta a areia seca do deserto. Falta ainda muita estrada para meu destino final. Por isso, não se preocupem, vai dar tempo de seguir com a história.

Toda aquela tragédia no hotel e os acontecimentos de minha infância formaram um emaranhado de situações difíceis de digerir. Acordei de minhas lembranças atordoado e com os pensamentos anuviados, só para variar. Estava deitado no banco traseiro de um carro velho. As reminiscências revelaram que eu havia nascido em 1982 e portanto tinha trezentos e cinquenta anos, ou perto disso, não sabia o dia do meu nascimento. Tudo parecia tão absurdo. Logo à frente podia ver Scarface dirigindo, concentrado. Não tinha forças para falar. Com esforço consegui me sentar. Scarface observou meus movimentos pelo retrovisor, mas não fez comentário. Meu ombro estava todo enfaixado e se podia notar manchas de sangue pelo banco todo. Um vento forte entrava pela janela do carro. Lá fora plantações de soja e milho se alternavam entre faixas de plantios de ipês. De repente uma enorme horta surgiu e, do sistema de irrigação, gotículas atingiram meu rosto, misturando-se a uma pequena lágrima. Havia drones sobrevoando toda a horta. Giravam e lançavam água que vinha do chão, conduzidas por tubos até eles. Era um sistema de irrigação original e impressionante. Aliás, tudo naquele mundo era assim. Depois de alguns quilômetros entramos em um grande túnel formado por copas de árvores. Começamos a cruzar uma extensa floresta. Sentia que tinha forças para voltar a falar, mas não sabia se valeria a pena. Ainda não sabia se Julia tinha sobrevivido, mas o fato de ela não estar no carro e Scarface não ter se pronunciado não eram bons indicativos. Isso me feria como se alguém me perfurasse com sadismo.

— Ela está viva — disse Scarface.

Abri um sorriso e senti como se toda poluição da baía de Guanabara saísse de mim, tamanho o alívio.

— Uma ambulância levou ela. O estado dela não é grave, mas vai precisar de cuidados. A sua condição é pior, estou te levando para um local seguro onde poderemos cuidar melhor de seus ferimentos. Não se esforce demais. Não te darei muitas explicações agora. Fique tranquilo e aproveite a vista. Sou seu melhor amigo, confie em mim. Estou com seu frasco de remédio. Eu gosto de silêncio enquanto dirijo.

Achei justo dar aquele homem o silêncio de que precisava. Tratava-se de uma pessoa truculenta e com um senso de justiça que me agradava. Havia me acostumado a não conseguir respostas através das pessoas, no final todas as respostas estavam comigo, era só questão de tempo e elas surgiriam. Julia estando viva me gerou esperança, ele não poderia estar mentindo. Ainda poderia reencontrá-la, finalmente sentir minha pequena por perto.

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