10- LEMBRANDO AS ORIGENS

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Brasil, Alto Parnaíba, Maranhão, ano de 1992

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Brasil, Alto Parnaíba, Maranhão, ano de 1992.

O homem nasceu livre e por toda parte vive acorrentado.

Jean Jacques Rousseau


De agora em diante meu relato se tornará mais tortuoso, pois as memórias me foram surgindo desconexas, como peças a serem encaixadas. Quero passar tudo do jeito que elas me vieram, na mesma ordem, pois ao final vocês entenderão tudo como eu entendo agora, não plenamente, pois ainda sigo em direção ao meu encontro com a única pessoa capaz de esclarecer tudo, de funcionar como cola para os cacos da minha vida.

Sinto um alívio ao relatar tudo isso, pois o deserto me tortura, de certa forma me abrir diminui minha solidão. Sei que não conheço vocês que estão a captar isso, mas cada vez tenho mais certeza que essa história não passará em vão, que faz parte de meu dever expressar essas vivências antes do meu encontro.

Recordei da minúscula cidade de Alto Parnaíba no Estado do Maranhão, que pode ser chamada de fim do mundo. Ficava nas margens do rio Paranaíba, divisa com Piauí. Recordei-me do tempo que passei por lá, mil e uma lembranças entrelaçadas se desvendaram enquanto eu fiquei desacordado, fugindo da crueldade que presenciei no hotel. Sensações, pensamentos, imagens e sons de muita força atravessaram minha mente, trazendo um panorama do que foi minha vida naquela pequena cidade. Vivi por lá, quase toda minha infância. Não existia praticamente estrada asfaltada. Nem na cidade, nem para chegar até ela. As ruas centrais eram pavimentadas com pedras, as calçadas, estreitas. A arborização era ínfima, ou seja, pouca sombra e calor de sobra. Junto ao único posto de combustível ficava o único restaurante considerável da cidade. Embora singelo, nunca o frequentei.

No ano de 1992 eu tinha nove anos e morava com minha adorada avó. A maioria das pessoas tem dificuldade em lembrar-se da infância, mas eu conseguia, dentro daquele transe, ver detalhes de toda aquela época. Nunca conheci meu pai. Sabia apenas que era austríaco, por isso eu tinha os olhos claros. Minha mãe faleceu logo após meu parto. Tudo que sei sobre ela foi minha avó que contou. Minha avó vivia dizendo que ela era a morena mais bonita do Maranhão, com a pele cor de jambo mais invejada do mundo. Minha orfandade, porém, nunca me impediu de ser uma criança feliz. Alto Parnaíba podia ser pobre em muitas questões, mas em termos de belezas naturais e pessoas companheiras era maravilhosamente rica. A principal atividade econômica do município era a criação de gado, consolidada em pequenas propriedades com bovinos sendo criados em meio ao Cerrado. A vegetação do lugar era esplêndida, com uma variedade de espécies enormes, muitas delas deliciosas como caju, mangaba, bacaba, marmelada, pequi, puçá, ata, araçá, buriti e jenipapo. Fome ninguém passava, tinha frutos e sementes o ano inteiro. A planície do Rio Parnaíba era extensa e coberta de árvores retorcidas, tudo quase sem variação de altitude. Às vezes, em meio à planície, surgiam grandiosos platôs, lembrando paisagens de filme de faroeste, porém, com um toque brasileiro. Tinha mais verde, mais tropicalidade. De cima desses platôs a vista era de tirar o fôlego, em especial quando o sol se punha e diversificava as cores, transmutando o cerrado em algo parecido com uma miragem. Do alto a savana parecia uma floresta fechada, pois as copas das árvores se tocavam, havia verde retorcido e sofrido, mas lindo de se ver. Com isso entendi porque me emocionava quando olhava o Cerrado de 2333.

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