8- A PRIMEIRA LEMBRANÇA

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Brasil, Estado do Paraná, Maringá, ano de 2308.

O que foi dito para rosa e que a fez abrir-se, foi dito a mim aqui no meu peito.

Rumi

O sonho bastante vívido e real começou na paisagem crepuscular da cidade de Maringá, a mesma do já extinto Estado do Paraná, assim como o Rio de Janeiro, uma das poucas metrópoles existentes no Brasil. Havia vivido momentos importantes naquela antiga cidade. Da janela de meu apartamento eu observava a antiguíssima catedral, com muito concreto, pontiaguda, alta, em formato de cone, que era rodeada do verde de imensos jardins verticais de trepadeiras, samambaias e bromélias que cobriam enormes edifícios; dos parques e florestas que contornavam rios; e da densa arborização urbana da metrópole. As luzes dos trens-drones e de suas estações suspensas, mais altas que as árvores, completavam a visão esplendorosa. O nome da cidade vinha de uma antiga canção de Joubert de Carvalho, chamada "Maringá, Maringá", que falava sobre a saudade de um homem por uma cabloca. No som do apartamento - que tocava como se dentro de meus ouvidos - ouvia a canção "Julia", que John Lennon fez em homenagem à sua mãe. A versão era de um grupo de cientistas brasileiros que utilizavam análises de harmonias e melodias em milhares de músicas para organizar novos arranjos para clássicos do passado. Na minha mente surgiu a canção que fiz para minha filha.

Senti braços quentes me contornando e seios macios encostando em minhas costas. Acariciei os braços da mestiça que eu amava. Lá estava eu revivendo meu amor. Ainda não lembrava que a perderia. No sonho desfrutei de um momento de prazer, como se a vida fosse um paraíso eterno, mas agora aqui enquanto relato tudo para vocês, onde já tenho o quebra-cabeças de memórias montado, faço força para sustentar a sanidade. Perdi minha mestiça e isso é insuperável.

- Ela dormiu, por uma milagre ela dormiu - disse a moça.

- Te falei que o que ela queria era mais leite e que não adiantava mais o colo.

Me virei e abracei forte sua cintura, trazendo mais atrito aos nossos corpos. Senti o hálito misterioso de café com chocolate que ela sempre tinha. Enquanto nos beijávamos o terrível choro de nosso bebê cortou o ar. Sabia que agora não tinha mais jeito, teria de ficar balançando o recém-nascido por horas, era difícil acalmar aquela ferinha.

Peguei o frágil ser humano e encostei sua cabeça no meu ombro, fiquei embalando a criança e batendo de leve em suas costas. O choro continuava incessante, um escândalo. Resolvi cantar a canção que fiz em homenagem àquela menina chorona, talvez isso a acalma-se, pois "Durma bebezuca". "Sonhando na floresta" e o clássico "Sapo Cururu" já não faziam efeito. Eu tinha talentos musicais bastante proveitosos.

Tenho em mim a certeza de felicidade

Nos teus pequenos, indefinidos olhos

No sono que acalma a inquietude que surge em seus gritos noturnos

Quero todos os paraísos e sorrisos

PRA JULIA

Anseio pelo som da sua voz em qualquer palavra

Pelo dia em que você vai entender sua história

Pelas futuras conversas e discussões noturnas

Pelos erros e acertos, perdões e abraços

JULIA

VOU ME LEMBRAR DE VOCÊ MAIS DO QUE VOCÊ SE LEMBRA

SABER MAIS DE VOCÊ DO QUE VOCÊ POSSA SABER

CHORAR E ORAR POR VOCÊ MAIS DO QUE VOCÊ POSSA VER

A música na época fazia sentido, pois ainda tinha uma boa memória, mas agora com certeza a minha criança se lembrava mais sobre mim do que eu dela. Eu tinha uma filha e não sabia como, mas minha fisioterapeuta, além de anjo era minha pequena Julia.

Constatado isso minha consciência despertou ainda dentro do sonho. Eu sabia que quando acordasse veria minha filha novamente, mas agora ela era uma moça. Desejava abraçá-la novamente, bastava eu sair daquela reminiscência, voltar à realidade. Correria para os braços dela, agradeceria por ela existir, beijaria a testa dela, sentiria o cheiro dos cabelos sedosos, apertaria com força suas bochechas. Observaria os traços de seu rosto, tentando perceber algo de Mariana nela. Perguntaria por sua mãe, por nossa família. Ficaria bem menos solitário e perdido.

Nota:

No link externo é possível ouvir a música original. No vídeo um clip da música. Originalmente a música foi feita para minha filha Lara, mas emprestei para Thomas e Julia.

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