7- UM NOVO CAMINHO

Começar do início

— Cada comunidade tem um limite de habitantes que não pode ser ultrapassado e planeja seus valores de produtos e serviços baseando-se nisso, pois o intuito é controlar a desigualdade — dizia ela olhando firme para mim — Por isso os nascimentos das pessoas são programados. No final das contas são constituídas medidas para que ninguém consiga ultrapassar um valor de riqueza máximo.

Eu chacoalhava a cabeça desacreditando, me beliscava a cada explicação.

— As pessoas são pagas apenas por seus serviços, o produto deles é de propriedade das comunidades, nas cidades é um pouco diferente. Imposto não existe mais, cada comunidade é como se fosse uma grande empresa, e toda sua população é considerada sócia em partes iguais — disse Julia sorrindo das minhas expressões de surpresa.

— Na minha época chamariam vocês de Marxistas filhos da puta.

— Não diga isso, é bem diferente de Marx. Não precisamos de um governo tão forte, mandando e desmandando em tudo. Não tem nada a ver com comunismo e nem com capitalismo. Esqueça isso. Tudo vem da transformação do ideal da sustentabilidade — explicou minha professora predileta.

— Julia, obrigado. Por tudo. Não sei exatamente por que você está fazendo tudo isso, mas me sinto feliz te ouvindo e presenciando esse mundo.

— Calma! Tem mais coisa. Todo o lucro com venda e trocas de tecnologia e produtos é revertido em melhorias para a própria comunidade. Também existe um controle de riqueza entre comunidades e cidades, quando ultrapassam o limite estabelecido o valor que sobra é repassado para as comunidades e cidades mais pobres do mundo. Entendeu, Big ?

Big era uma gíria que ela utilizava com frequência, como o "cara" de minha época. Mas reparei que só começou a falar descontraída daquele jeito só depois que me tirou do hospital.

Outra questão que ela prazerosamente explanou é que a gestão das comunidades e cidades é realizada por membros que se destacam em eficiência em suas profissões e por seus níveis de altruísmo (verificados em testes psicológicos e genéticos). Assim forma-se um grupo gerenciador, constituído por três dos melhores em cada profissão existente no local. Todas as decisões a serem tomadas em termos políticos e administrativos vão depender da análise dessas pessoas. Somente quando oitenta por cento delas concordam é que uma decisão é autorizada. Lembrei dos Gregos, aquilo parecia um aprimoramento da ideia autocrática, mas sem ser autocrática. Contraditório, mas foi o que imaginei.

— Big, em casos que as decisões são de nível técnico, somente os profissionais do grupo que possuam conhecimento sobre o assunto são considerados para votações. Não existem partidos políticos, não existem presidentes, governadores, prefeitos, apenas grupos de gerenciamento — explicou Julia cada vez mais entusiasmada e se virando no sofá.

— Peraí! Fala de novo isso. Não existem partidos políticos? — comecei a rir.

— Sim, exatamente. Big, você não sabe nada mesmo. Trimestralmente acontece uma reunião de grupos de cada Estado e são decididas ações políticos administrativas de cunho nacional. Anualmente são realizadas reuniões mundiais com grupos de gerenciamento de todo o mundo, dessas surgem decisões globais.

Eu estava com as mãos na cabeça, escandalizado. Pela janela da camionete, nos programas da hologranet, ao meu redor eu podia presenciar que era verdade, aquele mundo estava logo ali, maravilhoso, como a música de Louis Armstrong. Julia continuou sua aula e as palavras dela eram como mel dos deuses.

— Não existe mais miséria, nem mesmo pobreza, todos tem o básico para conseguirem ter uma vida feliz. Comida é distribuída de acordo com a produção alimentar de cada local, todos recebem a quantidade básica de cada produto produzido na comunidade. É possível comprar além do básico, em restaurantes e mercados especializados, mas para isso é necessário utilizar de recursos próprios. Em termos de habitação toda família recebe uma quantidade pré-estabelecida de terrenos e recursos para suas construções.

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