7- UM NOVO CAMINHO

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Brasil, Maranhão, Bairro para Viajantes, ano de 2333

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Brasil, Maranhão, Bairro para Viajantes, ano de 2333.

O tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar.

José Saramago



Já era noite quando estacionamos a picape em frente a um holograma que identificava o único hotel daquele bairro. Saímos do veículo e Dunga retirou um cabo elétrico de uma das laterais da picape e conectou a uma tomada próxima ao meio fio. Esse lance de tomada na calçada achei estranho, tanta tecnologia e precisavam de um fio e uma tomada. As próprias árvores nas calçadas iluminavam a rua, possuíam uma fluorescência nas folhas criando luminosidade. Estava explicado a minha dúvida sobre a iluminação noturna. Todas as construções da rua eram semelhantes, mas pelos hologramas identifiquei que havia padarias, lanchonetes, bares e cinemas naquele local. Provavelmente cinemas holográficos, fiquei curioso sobre isso. As calçadas eram amplas, como as que vi no Rio de Janeiro, ajardinadas e com árvores floridas, mas nesse caso eram retorcidas e com menos folhas. O asfalto estava cheio de folhas fluorescentes, esperança verde despejada pelas ruas. A paisagem brilhosa e esverdeada me fez sentir em paz, entorpecido pela beleza e loucura de tudo aquilo. Uma pequena máquina surgiu na esquina e se posicionou no centro da rua, lentamente foi se movimentando e sugando todas aquelas folhas, como se fosse um imã para restos vegetais, reparei que outros tipos de "sujeiras" não eram atraídas pela máquina. Com os olhos arregalados fui perguntar o que era aquilo, mas Dunga e Julia já adentravam o hotel.

Não havia recepção, Julia digitou algo em uma tela na fachada do Hotel, colocou seus olhos em um leitor de retinas e uma porta se abriu dando diretamente para um elevador, que nos levou para dentro de um belo e bem decorado apartamento conjugado, com três quartos, um banheiro, cozinha e sala. A decoração me fez sentir em casa, quadros de artistas brasileiros como Tarsila do Amaral e Beatriz Milhazes, misturados com pequenos pôsteres de discos de Djavan, Lenine e Gonzaguinha enfeitavam a sala de TV. Mais tarde Julia explicou que os hologramas simulavam grande parte da decoração de hotéis, sendo que o hóspede poderia escolher o tema. Em minha homenagem ela escolheu "os anos 80". Ela sabia que grande parte de minhas memórias pareciam ser desta época. No apartamento tudo lembrava 1980, uma breguice imensa, uma ilusão holográfica quase palpável.

Dunga se retirou. Julia e eu ficamos no sofá da sala conversando. Ela parecia querer sempre ficar ao meu lado. Não sei se me vigiando, mas estava nítido que gostava da minha companhia, podia ver nos olhos dela.

Quis saber como estávamos pagando por todo aquele conforto. Julia então me explicou, de forma geral, o funcionamento do sistema econômico mundial. Até onde entendi em todo o mundo a moeda é a mesma, chama-se escabim. Cada cidade ou comunidade anárquica tem seu próprio banco de créditos, nestes ficam registrados quantos escabins valem cada serviço existente no local e quanto cada pessoa possui deles. O escambim não existe fisicamente, ele é virtual. Quando Julia inseriu seus olhos no leitor de retina, na fachada do hotel, automaticamente seus escabins foram consumidos, seguindo o número de diárias escolhidas. A organização desses valores é fruto de uma tabela mundial que estipula o mínimo e o máximo que serviços e produtos podem valer nas cidades e comunidades do mundo. Para a confecção dessa tabela são realizados cálculos complexos envolvendo estatística e dados de informações econômicas mundiais. Computadores quânticos fazem os cálculos. Julia, gostava de explicar. Gesticulava com entusiasmo a cada detalhamento e gargalhava escandalosa quando eu não entendia algo comum para eles. Graças a ela e não a minha memória sei detalhes maiores desse mundo.

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