Capítulo 44 - Aurora

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Depois que Rafael me pega em seus braços eu perco a fome. Perco a visão. Eu perco até mesmo a porcaria do chão sob meus pés, mesmo que eu não pise sobre sua superfície a tanto tempo que nem me lembro mais qual era a sensação e para ser sincera não há mais nada que eu consiga lembrar, fazer ou pensar além de respirar aquele maldito perfume com aroma de liberdade, vida e perdão e apertar as partes da minha pele em que suas mãos encostaram porque a sensação é de que seu olhasse para elas não estariam mais queimadas. Eu tenho uma nova palavra para Rafael: cura.

É isso o que ele é para mim, a minha cura.


Chuva, lembranças e corações palpitantes

— É aqui, Aurora. — Rafael estaciona o carro em um beco fechado da mata e aponta para as árvores. Está brincando, né cara? Se eu atolei em um misero jardim o que seria de mim dentro de um bosque? Eu o olho com suspeita imaginando se esse não seria um plano maquiavélico para me deixar morrer de fome sentada em uma moita e Rafael sorri. E essa porcaria de sorriso que faz meu coração palpitante descobrir que nada mais importa porque ele está aqui, comigo. Eu poderia morrer nesse minuto e iria feliz.

Não reconfortada e sim feliz.

— Não podemos ir adiante de carro. — até agora eu não sei para onde estamos indo e para ser bem sincera não estou nem um pouco animada em descobrir. — E você também não vai conseguir chegar até lá na sua cadeira de rodas, eu sinto muito. — Me viro no banco lhe perguntando com os olhos que raios vamos se eu nem mesmo consigo chegar na droga do lugar por conta própria e mais uma vez ele sorri e eu sou jogada dentro de uma lembrança. Simples, assim, sem aviso e mais rápido do que um piscar de olhos ela desaparece em uma nevoa densa de esquecimento.

Tudo o que eu sei é que era sobre um bolo de chocolate e velinhas, seis velinhas e que naquele dia Rafael me disse uma coisa importante. Mas não me lembro o que. Não tenho tempo de tentar forçar minha mente a me dar uma resposta porque quando recobro os sentidos ele está abrindo a porta e colocando as mãos em mim e isso por si só me faz esquecer de todo o resto.

— Vou te virar e preciso que você coloque as duas mãos em volta do meu pescoço tudo bem? — Diz apertando levemente minhas pernas e empurrando-as voltadas para o lado de fora e antes que eu possa protestar Rafael se vira de costas e se agacha se posicionando no meio delas enquanto suas mãos seguram meus pés.

— Devo começar a cantar agora, Aurora? — Pergunta de maneira doce quando não tenho reação. — Porque eu não me importo, caso faça você se sentir melhor, afinal, você não pode contar isso para ninguém mesmo. — Sim, seu segredinho sujo está bem guardado, imagina se as pessoas soubessem de uma coisa dessas? Ia acabar com a sua reputação de filho da puta sem coração.

Esse negócio de cantar ajuda e muito a esquecer que estou sendo tocada simplesmente por ser a voz dele. Mas se eu fosse ser sincera lhe diria que não havia a menor necessidade de me distrair para isso porque seu toque por si só era uma distração sem tamanho. Mesmo assim eu gostei de escutar a melodia da última vez e me peguei ansiosa para saber qual canção ele escolheria hoje e esqueci de me prender a ele por estar distraída pensando se a letra era proposital. Claro porquê de maluca que vive no hospício e ataca enfermeiras inocentes eu passei a uma garota fútil que fantasia com o fato de o cara cantar uma música com uma mensagem subliminar especialmente pra mim. O que seria amanhã? Desejo sexual por óvnis ou um fascínio mórbido pela comida da Audrey?

Eu estava mesmo perdida, deveria ter acreditado no psiquiatra quando tive a chance!

— When your legs don't work like they used to before and I can't sweep you off of your feet, will your mouth still remember the taste of my love? — Tinha como não amar essa música e seu significado? ERA PRA MIM, eu sei que era pra mim. Cala a boca retardada e coloca nossas mãozinhas nesse pescocinho bronzeado, ordena meu inconsciente e eu prontamente obedeço. Fecho os olhos e deixo que sua voz seja a única coisa ao meu redor e dentro de mim, me preenchendo por completo e mesmo que Rafael tenha me carregado em suas costas por diversos minutos quando ele se cala e para a sensação que me domina é de que não passou de um piscar de cílios, mas que foi tempo o suficiente para que eu soubesse que meu coração palpitante batia apenas por ele.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!