5- FUGA

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Brasil, Rio de Janeiro, Hospital Tavares de Souza, ano de 2333

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Brasil, Rio de Janeiro, Hospital Tavares de Souza, ano de 2333.

A terra é o provável paraíso perdido.

Frederico Garcia Lorca


Os dias passavam e eu continuava a luta por lembrar alguma migalha de vida. Tentei inúmeras vezes reencontrar Scarface, mas ele se encontrava em algum tratamento experimental e não dava as caras. Vou então me adiantar para o dia em que alguns mistérios começaram a se elucidar.

Eu estava deitado em meu leito hospitalar e assistia um antigo filme chamado Paris, Texas (versão 3k holográfica). Filme da minha época. Identifiquei-me com aquele homem amnésico que vagava por um deserto. Queria ser resgatado por minha família como o personagem do filme, ter alguém para me mostrar de onde eu vinha e quem eu era.

O filme parecia predizer o meu futuro, mas eu não sabia ainda. Agora correndo com essa moto pelo deserto do Atacama, me toquei disso. Estou tentando ser conexo no meu relato, mas certo desespero flui dentro de mim. Lanço esses pensamentos para vocês, meus receptores, pois tudo que passei não pode ficar escondido.

Voltando ao ponto, me lembro que Julia entrou no quarto com o olhar nervoso.

— Bom dia! Como foi essa noite? — falou sem a doçura que lhe era peculiar.

— Tirando os meus pesadelos constantes com velhinhos enrugados está tudo bem.

— Hoje vamos fazer sua última sessão, considere—se fisicamente perfeito.

— Essa última também vai doer?

— É melhor sentir dor agora que depois.

— Está bem. Prefiro a sinceridade.

Levantei e estiquei minha perna masoquistamente para levar o choque. Julia rotacionou o botão da potência como nunca havia a visto fazer. Pude perceber um leve tremor nas mãos da moça. Ela evitava olhar para os meus olhos. Quando o aparelho tocou a sola do meu pé foi como se algo queimasse meu corpo por dentro, uma dor lancinante que me fez desabar.

Julia ensacou friamente meu corpo e com esforço o colocou em uma maca flutuante. Agia confiante, mas com o medo querendo saltar discretamente dos olhos. Passou pelos corredores do hospital, acredito que suando frio, esperando que ninguém percebesse o crime que estava cometendo. Eu não tinha forças para nada, só enxergava um pouco através de um minúsculo buraco no trilho do zíper do saco mortuário. Aquilo não fazia sentido. Um desalento assustador me tomou, pois sentia uma grande probabilidade de morrer sem saber nada do meu passado. Desgraçada! Quem é você? Como pôde fazer isso? Era só o que eu pensava. Chegando ao chamado departamento de despacho ela parou na pequena janela que dava acesso à saída, onde um funcionário cadastrava os dados dos corpos.

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