3-PERDIDO

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Brasil, Rio de Janeiro, Hospital Tavares de Souza, ano de 2333

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Brasil, Rio de Janeiro, Hospital Tavares de Souza, ano de 2333.

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

Clarice Lispector


Vinte anos se passaram depois daquele dia terrível e veio o impensável. Eu acordei de um coma profundo. Dentro de alguns meses estaria no deserto, correndo para chegar ao ponto de encontro com o homem que poderia me trazer conclusões finais.

Abri meus olhos e uma luz ofuscou minha visão. Não conseguia distinguir os vultos à minha frente e muito menos os sons. Tudo estava brilhante e embaçado. Não conseguia mexer o corpo, apenas os olhos. Não sabia onde estava e nem quem eu era. Sentia apenas angústia e a mente vazia de memórias. Aos poucos a visão foi melhorando e comecei a sentir que podia movimentar os dedos dos pés. Veio um silêncio profundo. A imagem de uma feição feminina com olhos lúcidos e tão castanhos quanto à pele ficou nítida. Ela movia os lábios e dizia alguma coisa, que eu não conseguia ouvir. Uma bela visão, mas eu não sabia de quem se tratava. Havia pessoas vestidas de branco ao redor do meu leito, pareciam espantadas e felizes. Um homem, que obviamente se tratava de um médico, tomou a frente da moça que tentava falar comigo, começou a gesticular e falar algo, mas o silêncio continuava a imperar. De repente todos os sons surgiram bruscamente fazendo um estampido agudo se tornar constante em meus ouvidos. Pude então compreender o que o médico dizia:

— Definitivamente ele voltou.

Fui tranquilizado com medicamentos e continuei não conseguindo falar e nem a me movimentar com desenvoltura. Me transferiram para um quarto aconchegante, ironicamente com vista para florestas e montanhas, cheias de mistério e tristeza.

Não conseguia raciocinar bem. Parecia que o tempo passava em câmera lenta. Devo ter ficado uma semana com uma sonolência grande, não sabendo distinguir sonhos da realidade. Antes havia um bloqueio em minha mente, não lembrava de todo o meu passado de séculos atrás, algo misterioso, que terá seus motivos revelados no decorrer da história. Mas ali naquele momento era pior, não havia uma lembrança nítida sobre mim, nada, apenas sensações e informações desconexas de tempos remotos me vinham em flashes. O acidente brutal, minha família, minha profissão, tudo esquecido. Somente lembranças fracas de um passado antigo.

Quando me senti melhor, me colocaram em uma cadeira flutuante, amarraram bem o meu corpo nela, pois não tinha condições de sustentá-lo e me levaram pelas instalações daquele hospital. Sim, cadeira flutuante, era esquisito. Vocês, meus receptores de tempos remotos, ficariam de queixo caído se vissem uma.

Passei por corredores bem iluminados e por portas transparentes de onde se podia ver salas para diversos tipos de tratamento. Era um local organizado e limpo. As luminárias e os móveis dos quartos e corredores eram de material reciclado, percebi porque eram extravagantes. Um lugar feliz. Até mesmo o cheiro remetia a limpeza e cuidado. Não conseguia aguentar o peso de minha cabeça. Fazia esforço revirando os olhos em várias direções para entender o lugar. Mesmo com as dores achei tudo incrível demais, talvez estivesse em um sonho. Não me lembrava de como aquilo podia ser possível. O enfermeiro, que direcionava a cadeira, me levou para dentro de uma sala luxuosa.

Uma Encomenda para um Novo MundoLeia esta história GRATUITAMENTE!