2-MALDITAS SURPRESAS DA VIDA

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Brasil, Litoral Paranaense, ano de 2313

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Brasil, Litoral Paranaense, ano de 2313.

Nossa tarefa deveria ser nos libertarmos aumentando o nosso círculo de compaixão para envolver todas as criaturas viventes, toda a natureza e sua beleza.

Albert Einstein

Vinte anos antes de precisar atravessar o deserto do Atacama, de começar esse relato, em 2313, tive o mais horrendo episódio que uma pessoa pode passar. Naquele dia eu não sabia que, além dos meus vinte e oito anos vividos, eu tive mais outros. Tinha o corpo jovem e achava ser dono de uma vida simples e curta, ignorava todo meu passado. Preferiria nunca ter ficado sabendo. Sinto terror de me lembrar dessa data específica, mas é crucial para o meu registro, pois foi quando se iniciou uma sucessão de eventos que me levaram a saber do meu compromisso neste deserto.

Alguns fatos importantes sobre o mundo no século XXIV precisam ser salientados, para que o entendimento da minha jornada seja bem entendido por aqueles do passado. Espero que não se incomodem, tenho uma mania por explicações detalhadas, isso vem de minhas raízes profissionais.

Nos anos de 2300 a sociedade baseia suas ações na conservação ambiental. O passado ensinou a humanidade a respeitar a natureza. Uma vitória estrondosa, foi o que fizemos. Durante o século XX e XXI muitos cientistas advertiram que um holocausto biológico estava acontecendo. Espécies estavam desaparecendo com uma velocidade maior que a natural, em decorrência das ações humanas.

No ano de 2014, o famoso biólogo Edward Osborne Wilson, coautor de teorias importantes como a da Biogeografia de Ilhas, indicou a necessidade da restauração de áreas naturais conectadas para que recobrissem a metade da superfície do planeta. Isso ajudaria a manter os ecossistemas funcionando para nos gerar recursos (água, ar, solo, polinizadores, biodiversidade...) e ainda por cima captaria boa parte dos gases que estavam desregulando "nossa" estufa. Eu concordava plenamente com esta estratégia, mas boa parte do mundo não. Afinal a indústria de alimentos e de combustíveis teriam de fazer adequações que trariam o que eles chamavam de holocausto econômico.

Além da recuperação de áreas naturais eu previa que o segredo da mudança do mundo estava em grande parte concentrado na agricultura e na criação de animais, pois foi a partir deles que formamos nosso sistema social e que nos anos 2000 avançava para um desastre. Pensava que conduzindo essas produções para ideais conservacionistas, seria como girar a chave para uma melhora. Claro que tudo associado a uma mudança comportamental da humanidade de proporções escandalosas. Nem sei se escandalosa funciona, talvez não exista adjetivo para dimensionar o tamanho disso.

Era evidente que com a globalização e o crescimento populacional, alterações sociais e econômicas, com vistas à conservação ambiental eram necessárias para se ter um desenvolvimento com melhor qualidade de vida para todos.

Em 2313, acreditem, a Floresta Atlântica, tecnicamente chamada, por nós especialistas, de Floresta Ombrófila Densa, a floresta amiga das chuvas, que foi grotescamente desmatada em um passado trágico, já recobria uma área imensa do Brasil, em especial a do Estado do Paraná, abrigando a maior diversidade de vida do planeta. Eu presenciei essa floresta sendo recuperada, foi como um milagre tanta vida ressurgir.

O litoral paranaense em 2313 era considerado um dos mais selvagens e belos do Brasil. Após alguns maremotos e a destruição completa de municípios como Matinhos, Paranaguá, Antonina e dos principais balneários que ali existiam, uma extensa praia ocupou o que antes era urbano. Algumas das chamadas comunidades anárquicas, instalaram-se em locais bem planejados e estruturados no litoral, trazendo um turismo eficiente e cuidadoso, além da pesca produtiva e sustentável. Passei muitas de minha férias nessas comunidades. Divertíamos nas águas translúcidas e mornas, nadávamos com golfinhos que ajudavam na pesca, mergulhávamos vendo centenas de espécies marinhas, nos deliciávamos com a comida das barraquinhas voadoras. Dante, meu filho, fez uma coleção com milhares de conchas, toda vez que íamos ele nos fazia voltar com uma mala de conchinhas.

Uma rodovia especial e adaptada para veículos que funcionavam à base de energia solar havia sido instalada na serra do mar, cortando a grandiosa floresta e seus desfiladeiros. Existiam muitas pontes e túneis engenhosamente inseridos na paisagem. Havia maior segurança para o trânsito de animais e pessoas. Agora eu sei, consigo lembrar que fiz parte dos primórdios desse projeto, ajudei a elaborar o trajeto e forma dessa rodovia.

Por ironia foi nessa rodovia que tudo aconteceu, onde iniciou-se essa maldita jornada que me trouxe até o Atacama. Era para ser um dia feliz. No rádio do carro tocava uma versão atualizada e alegre da música Do Leme ao Pontal, com os vocais de Tim Maia, mas com novos e mirabolantes arranjos. Como mencionei, naquele momento eu acreditava que havia nascido no ano de 2285 e que minha vida era uma das mais felizes e privilegiadas do mundo. Havia um bloqueio, não me lembrava de grande parte da minha vida. Um absurdo, mas um fato. Explicarei isso depois. Minha esposa gargalhava das perguntas do nosso casal de filhos, que se cutucavam e tagarelavam no banco de trás.

Não quero me gabar, mas eu tive a família perfeita. Pena que não durou muito tempo. Pelo retrovisor eu podia ver os olhos escuros de Julia, a mulatinha mais linda do Brasil, naquele dia com cinco anos de idade. Meu filho Dante era meu orgulho, com apenas oito anos era dotado de muita sensibilidade e coragem.

Aquilo sim era vida. Porém, como vocês vão perceber as coisas costumam ser trágicas para mim. Isso me fere, é realmente penoso.

- Pai, o Dante tá me esmagando - reclamou minha filha.

- Dante, pare! - falei com firmeza.

Dante se afastou, mas para finalizar ainda deu um cutucão em Julia. Pude ver seu sorriso arteiro pelo retrovisor.

Minha esposa Mariana suspirou e disse:

- Thomas, férias em uma comunidade praiana é tudo que precisávamos.

- É bem mais do que preciso, para mim vocês já bastam - falei de forma melosa, expressando o que sentia.

Lembro que Mariana passou a mão em meus cabelos e nossos olhares se cruzaram. Nossa! A vida sem eles é um martírio. Naquele momento senti saudades dela, mesmo ela estando ali tão perto. Só de olhar para Mariana as pessoas se intimidavam, a beleza dela era agressiva. Ela conquistava os outros com facilidade, mais os homens que as mulheres. Os olhos levemente puxados revelavam sua descendência asiática, mas as curvas de seu corpo confirmavam a brasilidade que fervia em seu sangue. A morte levou partes de mim naquele dia, com toda certeza não poderia ser o mesmo, apenas um rascunho feito da dor que sobrou. Só esquecendo por completo a existência de meus amores é que poderia continuar e me reconstruir. Para sobreviver, deveria ficar distraído, não poderia vasculhar em mim a memória daquelas pessoas, a dor de lembrar me faria desintegrar. Exatamente como estou desintegrando agora, nesse deserto. Provavelmente depois de muito tempo, tempo que não tenho. Quando a minha memória se desgastasse, como uma velha foto embaçada, é que poderia ter uma vida mais livre do afogar da saudade. Foi isso que pensei naqueles segundos, uma ironia, porque logo após esqueci-me de tudo.

No ano de 2313 acidentes de carro eram raríssimos. Os satélites monitoravam e guiavam os carros por grande parte dos trajetos programados. Não tenho explicação para o que aconteceu. Quando meus olhos desviaram do paraíso contido nos olhos de Mariana tudo que vi foi um terrível veículo na contramão. Tive um reflexo espantoso, tomei o controle do carro e consegui desviar da morte, mas o carro deslizou na pista em direção ao abismo. Meus sonhos e minhas razões de viver despencaram para a imensidão de vida e verde da floresta. O som de Tim Maia continuou tocando no rádio, mas não existia mais felicidade nele.

Nota:

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