Capítulo 18

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Dedicado a FiammaSantos

Aquela foi a melhor festa de toda a minha vida. Não que eu tivesse ido a muitas festas, - já que fazia muito tempo que não saia de casa para qualquer coisa que não fosse trabalhar e estudar -, mas havia sido o meu melhor aniversário. Porém, mesmo estando ali com todos os meus amigos reunidos, não deixava de pensar que tinha um turbilhão de coisas para fazer no dia seguinte. Precisava chegar em casa o quanto antes.

Assim que a festa terminou, ficamos mais algum tempo até organizar todo o local. Logo depois, nos despedimos de Augusto e seguimos para esperar um táxi.

Lana e Dona Mariana conversavam sobre várias coisas, dentre elas a faculdade, perguntando a Alice e eu o que estávamos achando do curso. Posso dizer que estava gostando de estudar letras, embora fosse cansativo ter que emendar um dia de trabalho à rotina da faculdade. Com o passar dos meses meu interesse pela curso cresceu consideravelmente e acredito que com Alice, seja da mesma forma.

Andávamos pela rua e Lana seguia ao meu lado calada, parecendo manter seus pensamentos bem longe dali.

- Está tudo bem? - Perguntei de repente.

- Está sim. - Falou, pude ver que não estava sendo sincera.

- Não é o que parece. Você está muito tensa, aconteceu alguma coisa?

- Não sei... só estou me sentindo esquisita, tive um mal pressentimento. - Revelou.

- Está tudo bem Lana, tudo já passou. - A acalmei.

- Eu sei, é bobagem minha. - Riu, de leve - Mas não posso deixar de sentir medo pelas minhas suspeitas. - explicou.

Dona Mariana parecia ouvir a nossa conversa, - embora estivéssemos falando baixo o bastante para que só nós ouvisemos -, mas parecia não entender muito bem do que se tratava. Alice olhou para mim com cara de preocupada, parecendo entender que falávamos de algo importante.

- Está tudo bem? - perguntou, franzindo o cenho.

- Está sim, Alice... - Lana respondeu.

- Eu sei de toda a história, Lana. - falou - E quero que saiba que você pode contar com a gente. - Concluiu.

Lana assentiu, com um sorriso discreto.

- Vocês não acham que esse táxi está demorando horrores? - Perguntou Dona Mariana, batendo o pé impaciente.

- Calma tia, só faz cinco minutos que estamos aqui! - Disse Alice.

- Mesmo assim! - respondeu, nada discretamente - Já são quase dez horas e não estou a fim de passar a noite aqui!

- Não exagera tia! - Brincou Alice.

- Exagero? Eu não quero passar a noite na rua, daqui a pouco o dia amanhece e dormimos aqui! - Brincou - Se soubesse, teria trazido barracas!

- Definitivamente você é uma figura tia Mariana! - Disse Alice, rindo.

Todos nós rimos também.
A tia de Alice começou a reclamar mais uma vez da demora do táxi, com piadas sem sentido algum, mas que nos arrancou várias risadas. Dona Mariana realmente era uma figura.

Enquanto riamos de seu jeito extravagante, percebi que Lana parou de rir ao olhar para o lado. Ela estava estática. Olhei na direção em que olhava e vi a pessoa que menos desejaria ver de novo na minha vida: Richard.

Ele permaneceu parado, encarando-nos com os olhos fundos e marcados por orelhas. Parecia não dormir há dias. Suas roupas estavam rasgadas, e embora a luz da lua não fosse suficiente para revelar todos os detalhes, via-se que seu estado era deplorável. Não era nem sombra do homem que um dia já foi meu pai.

Todos permaneceram parados, sem reação alguma.

- O que faz aqui? - Fui eu quem me aproximei, tomando a frente da situação - Se veio procurar a Lana, saiba que ela não quer saber de você.

- Sai da minha frente, garoto. - falou áspero.

- O que você quer? - Perguntei mais uma vez.

- Eu vim aqui para buscar a Lana, ela vem comigo. - falou autoritário.

Nesse instante tive vontade de socá-lo até que caísse ensanguentado no chão. Eu sentia ódio daquele homem. Vergonha. Mas não podia arriscar fazer tal besteira.

- Eu não vou com você! - Ela falou. Estava à alguns metros atrás de mim, perto de Alice e Dona Mariana, apavorada.

- Você é minha mulher, vai comigo sim sua vagabunda! - Esbravejou o troglodita.

- Não fala assim dela! - Gritei. - Saia daqui agora, ou chamamos a polícia.

- Eu não sou obrigada a ir para lugar nenhum com você, Richard! - Insistiu Lana.

- Eu só saio daqui com você, sua vadia. - Ele repetiu, os olhos fixos nela, possuído de ódio.

- Você não vai à lugar algum com ela. - Repeti - Vá embora daqui!

- Quem vai me impedir? - Perguntou, com desdém.

- Eu. - Repeti, já discando o número da polícia no meu celular.

E foi nesse momento que ele tirou uma arma da cintura, estendo a mesma em minha direção, com um olhar possuído de ódio. Eu estava paralisado. Não acreditava que tudo aquilo estava acontecendo, não podia acreditar que aquele homem era o meu pai. Mas eu não baixei a guarda. Eu não deixaria que ele levasse a Lana. Ele não a tiraria de mim.

- O que você está fazendo, Richard! - Gritou Lana, apavorada. - Pelo amor de Deus, baixe esta arma! Não faça nada do que se arrependa, pelo amor de Deus!

Alice e Dona Mariana estavam chocadas, chorando deseperadamente. O desespero tomou conta de todos naquele momento. Porém, eu me mantive firme.

- Cala a boca e venha comigo sua vagabunda! - Repetiu ele.

- Ela não vai com você à lugar nenhum seu imbecil. - Repeti.

- Sai da minha frente agora! - Ele disse, posicionando a arma em minha direção.

- Siga em frente. - O desafiei - Você não é capaz de fazer isso. - Coloquei o celular no ouvido aguardando a chamada do outro lado, a qual não foi atendida.

Ele riu, ainda com a arma apontada na minha direção.

- É capaz de matar seu próprio filho? - perguntei, sentindo minha voz sair quase como uma súplica.

- Você não é mais o meu filho, é um traidor como sua mãe era. Você e essa vagabunda, são uns traidores! - Gritou, aumentando o tom da voz a cada palavra, demonstrando um ódio inexplicável.

Todos estavam paralisados. Lana chorava muito, desesperada.

- Corram daqui agora! - falei, desesperado.

- Se elas correrem, eu atiro em você! - Ele desafiou.

- Corram! - Repeti - Fujam daqui, agora!

- Não, Rick! - Gritou Alice, a voz falhando, revelando o profundo desespero que sentia.

- Por favor, tirem a Lana daqui! - Insisti.

Mesmo apavorada, foi isso que Dona Mariana fez. Ela correu em direção a casa de Augusto, a qual ficava à poucos metros dali. Mas Lana e Alice não obedeceram o meu pedido.

E foi nesse momento, que Richard disparou.

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