Sabrina Petran e o Castelo Francês (CC)

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Bourges, France

1975

Sabrina Petran era uma Dusü baki Nagara, ou Caçadora de Demônios. Sangue desses seres infernais corria em suas veias, não que ela tivesse escolhido essa vida há mais de quinhentos anos. Exatos quinhentos e quarenta e um anos, apesar de ela não parecer ter um dia a mais de quatorze anos. E em todos esses anos, nunca ela teve um adversário tão poderoso quanto esse, alguém capaz de deixá-la no estado em que estava.

Seu braço direito, o que usava para lutar com a Adaga de Natascha – uma faca feita de ossos, do punho à ponta da lâmina, mas que era letal, principalmente aos demônios – havia sido perfurado na altura do ombro com tamanha precisão, que ele não apenas estava imóvel, como seus dedos estavam paralisados em volta da adaga e ela não conseguia usá-la.

Saphiseir, o demônio diante de Sabrina, era um dos cada vez mais raros casos de seres infernais que, um dia, fora um anjo que pertencera a Legião de Lúcifer. Estes foram corrompidos pelo próprio Inferno, perderam suas asas, suas formas celestiais, apesar de ainda serem mais poderosos do que os demônios comuns. Ele tinha três chifres, cada um nascendo de trás de sua cabeça, contornando-a até a altura da testa. Seu cabelo era inexistente.

Sua pele era preta e repleta de desenhos arredondados, que pareciam sair de seus olhos e circular todo o corpo, até dentro das calças, que agora estavam sujas de sangue – seu e dela – e rasgadas. Ele carregava uma clave, uma arma que parecia um taco de baseball, porém com espinhos em todo o trajeto, do punho a ponta. Esta arma, também, estava encharcada com o sangue da Nagara. De resto, Saphiseir era humano; um muito músculo e com a força de mil homens convencionais.

A pior parte, era que Saphiseir mal tinha suado, enquanto ela, estava em farrapos.

Sabrina costuma usar calças largas e cheias de rasgos, mas dos quais, ela tirava centenas de facas, adagas, kunais, e outras dezenas de tipos de pequenas armas cortantes, seja de lançar ou não. Isto graças a feitiços poderosos que ela mesma conjurara. Assim, ela tinha sempre uma arma em mãos para enfrentar os demônios que caçava, mesmo que apenas a Adaga de Natascha era capaz de matar um demônio de uma vez por todas.

Naquele momento, ambas as pernas de sua calça haviam sido rasgadas, portanto, o feitiço não mais existia. Sua única arma restante estava presa entre dedos paralisados. Com a mão esquerda, ela apertava o buraco feito por um dos dedos de Saphiseir, tentando estancar o sangramento. Usou duas palavras na Língua Proibida, para lançar um feitiço, parar a sangria e aos curar o ferimento, mas sabia que não aconteceria imediatamente.

Olhou rapidamente para os lados, sabia que se perdesse o contato visual com ele por muito tempo, seria fatal. Todas as armas que tinha usado até então estavam quebradas no chão do castelo abandonado em que estavam – de fato, sabia que aquele lugar fora uma catedral séculos antes, agora não passava de uma pilha de pedras cujas paredes e chão estavam repletos de heras e outras plantas que cresciam com a ausência de manutenção humana.

Seus olhos encontraram uma pequena kunai, cuja ponta estava presa a uma corda de aço maleável e leve de quase dois metros. Tinha que pegá-la, mas teria de fazer no momento correto. Quando voltou os olhos para Saphiseir, ele tinha desaparecido. Sabrina apenas percebeu sua presença por ter visto a sombra que a lua criava; ele estava acima dela.

Sabrina saltou para o lado, o mesmo em que estava a kunai. O ataque causou um tremor violento. Ela a agarrou e lançou contra o demônio, mas antes que pudesse atingi-lo – e ter a kunai destruída pela clave do adversário –, a Nagara agarrou a ponta do fio de aço e puxou-o. Frustrado, o demônio atacou outra vez, tão rápido, que ela mal teve tempo de acompanhar.

Abaixou, desviou para esquerda, saltou, ao mesmo tempo em que levava a kunai para lá e para cá, tentando acertar o adversário, em vão. Quando percebeu, estava outra vez de volta no centro do salão. A clave veio pela esquerda, ela girou para direita, conseguindo ficar atrás dele. Então, puxou o fio e trouxe o punho de sua arma para sua mão. Sem hesitar, levou-a contra as costas do inimigo.

Apenas para ter sua última arma funcional despedaçada.

Saphiseir girou, ao mesmo tempo em que abaixava, dando uma rasteira de surpresa na Nagara, que foi ao chão. A clave veio contra ela em seguida; Sabrina girou no último segundo. A arma bateu contra o chão, causando outro tremor. Sabrina sabia que havia algo de errado quando sentiu que o chão não parava de vibrar, até mesmo Saphiseir cessou seu ataque por alguns segundos. Então, eles caíram alguns metros; Sabrina bateu a cabeça em uma pedra, mas felizmente, ela era coberta por um musgo espeço. O ferimento formado não foi fatal, mas foi o bastante para tirá-la do ar por alguns minutos.

Quando reabriu os olhos, descobriu-se em uma sala escura, mas que ainda tinha um pouco de luz que a permitia ver. Notou uma sombra. Ao segui-la, encontrou Saphiseir analisando um espelho, que era a fonte de luz. O reflexo não era o dele, mas sim o de uma floresta. Ela estranhou, mas soube imediatamente que aquele não era um espelho comum.

Uma magia poderosa e sombria emanava dele, mais forte do que a do próprio demônio, que acariciava a moldura dourada, porém oxidada, com delicadeza. Sua mão foi para o reflexo, e para surpresa da Nagara, os dedos dele foram consumidos pela imagem. Ele sorriu maliciosamente; em seguida, entrou pelo espelho.

Sabrina Petran se levantou devagar, apoiando-se na mão direita. Agora ela voltava a funcionar e tinha a Adaga de Natascha a sua disposição. Cambaleou até o espelho e o fitou por alguns minutos. Ela conhecia histórias semelhantes, conhecia magia, então soube que do outro lado daquele vidro havia um mundo, um lugar que ela, provavelmente, nunca explorara. Começando a se arrepender, ela entrou.

***

Hey there,

Este é o primeiro conto anacrônico (ou seja, que não se passa em ordem cronológica de nenhum dos livros) do Sétimo Universo. Ele é uma introdução ao conto Sabrina Petran e os Demônios de Neve, que foi aceito como parte da antologia da Editora Arwen, Demontale: As Matadoras do Submundo. Para saber mais, acesse: www.umdiafrio.com

Sabrina Petran e os Demônios de Neve será lançado na Bienal do Livro de São Paulo no dia 27.08. Eu estarei por lá!! Acesse o blog (link acima) e descubra os horários!

Obrigado e bye bye

(HCSU) - A Dama e sua LâminaRead this story for FREE!