Capítulo Extra - Ren - Sobre Elementais e Fatasmas - Parte 02

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O flamine tornou-se uma rajada de luz novamente e veio para cima dela mais rápido que um pensamento. Então era isso. Fora salva pelo irmão apenas para perecer mais uma vez. Será que era seu destino permanecer morta?

O ressentimento pela destruição iminente subiu como bile pela garganta de Ren, e a boa e velha fúria borbulhou em seu interior. Mas ela logo a empurrou para longe, pois sabia que não era o sentimento certo no momento. Ao se dar conta disso e conscientemente empurrar a raiva para longe, Ícarus desacelerou, como se por encanto. Por um instante, ela conseguiu enxergar cada faísca, cada faixa de magia que compunha o corpo do elemental em disparada. Podia ver o seu rosto distorcido, correndo para ela com uma alegria insana.

Então, Ren mais uma vez voltou os olhos para dentro de seu ser. A raiva há muito superada, substituída por assertividade e calma. Ela viu a conexão. Fácil e simples, como Larson havia dito. Observou aquele poder que era seu e ao mesmo tempo não era. Ele ainda flutuava por seu Coração de Magia, apenas esperando o chamado. Aguardando a forma, a expressão. Ren pousou a mão no próprio peito chamuscado, como se puxando algo dali. Afastou a palma aos poucos, energia de um carmesim intenso acompanhando o movimento. Logo ela sentiu a presença. Não estava mais só.

A garota abriu os olhos. Ícarus voava em sua direção como um animal sedento, o sorriso aberto.

Ela ergueu o braço com a palma aberta, em um gesto de "pare". Flâmula a imitou.

Com ambas em pé e lado a lado, o poder se confundia, se mesclava e rodopiava.

Ícarus chocou-se contra seu poder combinado. E não atravessou. O impactou gerou uma explosão de luz e calor, ainda mais intensa que as chamas que iluminavam a floresta.

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Puppet saiu flutuando da moita onde caíra, como um inseto abobado. O laranja dourado das chamas das árvores brilhavam com um tom de aço em suas partes metálicas. Sua programação demandava proximidade com sua dona, um raio inferior a 500 metros. Quanto mais perto, maior a eficiência. Não foi preciso procurar muito. Logo seus sensores localizaram a magia distinta de Ren.

A boneca seguiu meio cambaleante para o lado da garota. Precisava de uma recarga urgente. Enquanto se posicionava atrás do ombro de Ren, registrou a elemental Flâmula um pouco mais a frente dando uma espécie de sermão no flamine Ícarus. Flâmula era muito tímida e mal chegava à altura do peito do outro elemental. Parecia um pouco intimidada, mas ainda assim podia-se chamar aquilo de repreensão, considerando a determinação com que falava com o elemental mais velho.

- Você não pode atacar a parceira humana de outro elemental! Ainda mais quando foi você mesmo que sugeriu o pacto entre nós duas! Você podia tê-la matado se ela não tivesse me encontrado! Eu também deixaria de existir! E tem mais...

Ícarus apenas escutava, divertido. Como uma criança arteira. Ren estava imóvel, os braços cruzados e com um brilho de mau humor no olhar.

O flamine gigante ouviu sua semelhante pacientemente, mas só sossegou quando ela lhe contou como sua parceira humana podia estar viva. Logo após ouvir a história, perdeu o interesse. Enquanto se afastava e desvanecia em pleno ar, desejou boa sorte a Flâmula e soltou bafejadas de fogo entre risos, observando Ren por cima do ombro. No momento em que sumiu completamente, a floresta se apagou, como em um passe de mágica.

- Maldita floresta que se acende como em um incêndio. Gosto muito de você, Flâmula, mas os elementais me assustam.

Flâmula riu.

- É justamente esse o efeito que Ícarus quer causar ao acender a floresta. É só um truque barato.

As duas riram.

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