Capítulo 39 - Aurora

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Aurora

  Era uma sensação intensa de estar com os pés fora do chão. Era uma agonia sem tamanho que comprimia meu coração. Era uma enxurrada de apenas uma única emoção. Era saudade e não era. Era estranho. Era uma percepção inquietante de que alguém se feriu por minha transgressão. Então era apenas isso, culpa, essa era a razão.


Manchete: Maluca morre engasgada com batatinha frita!

Rafael Tascione. Também conhecido como o dono das minhas lembranças e dos meus pensamentos. O cara que rouba o meu ar. O cretino que me sufoca. Uma criatura mesquinha que me mostrou mais um de seus poderes naquele bosque: me desestabilizar com uma única frase. Porque a culpa foi sua. Suas palavras ecoam dentro de mim me obrigando a recorrer a um autocontrole que já foi provado cientificamente que não possuo simplesmente porque não foi embutido no meu NDA pela cegonha para fazer com que o ar chegue em meus pulmões áridos antes que eu lhe dê o prazer de me sufocar a sua frente.

Uma cena que Rafael adoraria presenciar, se possível com um balde de pipocas em mãos. Mas se fosse mesmo esse o caso eu faria questão de enfiar o tal balde com pipoca e tudo em sua bundinha bonita antes de partir dessa para uma melhor somente para que o cretino tivesse uma provinha de como é ficar SEM AR.

Mesmo que eu tivesse pressuposto que o Mister Arrogância de alguma maneira me culpou pelo desaparecimento de Lexie quando se recusou a saudar minha chegada com balões coloridos, palminhas e alguns abraços quentinhos que eu prontamente recusaria foi infinitamente mais dolorido escutar seu desabafo carregado de ressentimento saído de sua própria boca, que assim como sua bundinha, era linda. E o pior dessa merda toda? Eu sentia no fundo da minha alma destroçada que era mesmo culpada por alguma coisa imperdoável, embora não soubesse especificar o que de fato havia feito de errado.

Quer merda eu fiz para esse cara, porra?

Não tenho reação quando Rafael coloca o caderno sobre minhas pernas imóveis e se afasta em silencio. Por mais que me dar as costas seja um ato costumeiro e a essa altura eu provavelmente devesse estar imune a sua falta de interesse por mim, não estou. Em cada um desses momentos meu coração se machuca um pouquinho mais sem que eu saiba porquê. Porque Rafael me afeta tanto? Ele é lindo e atraente e em minha antiga vida seriam os requisitos necessários para chamar minha atenção. Mas eu sentia que existia algo mais que nos ligasse e mais uma vez eu não sabia o que era.

Eu não sabia muitas coisas ultimamente, tudo o que eu sabia é que tinha fome e isso nem era uma novidade, eu sempre tinha fome.

Ele para na metade do caminho e solta um palavrão se virando novamente em minha direção parecendo em um dilema. Então entendo que por mais que não me tolere ainda se preocupa em me largar sem supervisão no bosque no mesmo momento em que alguém grita seu nome.

E, salvo pelo gongo! Filha da mãe sortudo.

— Te achei seu puto! — Berra Tristan. — Faz horas que estou te procurando! Olhei até mesmo em baixo de cada uma das pedrinhas desse bosque. — Mente descaradamente olhando para Rafael com medo no olhar.

Então essas duas pestes são amiguinhas é? Penso de forma rancorosa.

Rafael não lhe responde porque se ocupa em agarrar as golas de sua camisa e o sacodir por uns bons minutos de maneira descontrolada. Talvez não tão amiguinhas penso com pena de Tristan. Nesse momento não me sinto mais especial porque parece que não sou a única a ser obrigada a lidar com seu péssimo humor.

— Onde você se meteu, porra? — Grita no rosto de Tristan que parece estar pensando em uma desculpa aceitável porque demora demais para responder.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!