Capítulo 36 - Aurora

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Aurora

Eu nunca fui uma menina que sonhou um dia em ser uma donzela em perigo. Eu não queria um cavaleiro de armadura brilhante correndo em minha direção bradando uma espada. Não queria ninguém lutando em minha defesa porque nunca quis precisar de ninguém para me sentir protegida. Mas isso mudou quando eu precisei ser defendida e meu salvador imergiu de dentro de um mar de solidão correndo em minha direção. Assim que meus olhos recaíram sobre ele eu soube. Soube que seria ele a me fazer desejar ser mais, muitos mais do que já sonhei em ser um dia


O cavaleiro de armadura brilhante e o ladrão de biscoitos


Eu sabia que teria mais um dia de merda quando acordei e descobri que aquele cachorro imundo desapareceu pela janela que abandonei aberta depois de roubar todos os meus biscoitos. LADRÃO DE MERDA igualzinho a esse dia de merda! Será que toda aquela cena de arranhar a janela com aqueles olhinhos tristes me pedindo para entrar foi uma encenação para um roubo premeditado da minha comida? Eu acredito que sim.

O cachorro era mesmo mais esperto que eu!

Naquela manhã repetimos a mesma rotina: Tomamos o café em silencio desconfortável enquanto Finn tentou imitar um ruminante ao mastigar de boca aberta depois o idiota me jogou dentro do carro sem nenhuma cerimônia me dando um aviso claro para que eu não aprontasse nada, ou melhor, não batesse em ninguém. Audrey nos levou para o colégio assobiando uma musiquinha bem irritante e Jessi me abandonou assim que pisou na calçada e acenou em despedida para sua mãe. Por fim, eu sacolejei pelo caminho de paralelepípedos parecendo estar dentro de uma batedeira com um péssimo humor e igual ao dia anterior os problemas surgiram antes mesmo que eu entrasse no prédio de tijolinhos avermelhados.

Fiquei parada olhando para a rampa e pensando: Fodeu! Agora F-O-D-E-U! Será que eu conseguiria assistir a pelo menos uma aula ainda esse ano? Eu tinha minhas dúvidas.

Nem por um único momento me iludi em acreditar que pudesse ter sorte em conseguir subir aquela coisa sozinha e me arrependi de não ter contado para Finn meu pequeno — quando eu digo pequeno, leia-se ENORME — probleminha no dia anterior quando tive chance. Seria muito vergonhoso se eu fizesse com que meu polícia de estimação se atrasasse para o trabalho todos os dias ou se sua adorável mulhezinha ruim de panela tivesse que gastar seus bracinhos apenas para me empurrar até o topo. Mas ainda era menos vergonhoso do que ficar parada que nem uma idiota olhando para aquela coisa medonha sem saber o que fazer em seguida.

Naquele momento eu não era feliz. Mas também não era infeliz, não tanto quanto poderia ficar e ainda não sabia. Mas como sempre tudo que é uma merda pode virar uma bosta. Meu belíssimo ditado de vida!

Se pensei que aquele seria o maior dos meus problemas me enganei bonito. Os adolescentes foram. Um grupo de garotos desocupados que me notaram de imediato e acharam incrivelmente divertido zombarem de mim. Fui cercada sem que eu me desse conta e quando finalmente os notei já era tarde demais. Eu estava rodeada. Me senti como uma gazela sendo espreitada por um bando de lobos famintos em uma savana.

EU ERA O BAMBI!

Pena que não tinha um gambá bonitinho para chamar de meu. Bom, pensando bem eu tinha um cachorro que cheirava igual a um. Enfim, voltando aos leões. Me distraí pensando que a palavra certa era alcateia, mas ela combina infinitamente melhor com lobos do que com leões e nesses poucos instantes de pensamentos inúteis e desconexos eu me lasquei de novo.

Me distraí pensando que a palavra certa era alcateia, mas ela combina infinitamente melhor com lobos do que com leões e nesses poucos instantes de pensamentos inúteis e desconexos eu me lasquei de novo.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!