Capítulo 34 - Rafael

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Rafael

No momento em que lhe virei as costas eu soube que tinha sido fisgado porque não importou para onde eu olhasse ou o que fizesse ELA era tudo o que eu via. Então fui surpreendido por uma certeza assustadora, Aurora e sua face de anjo eram a maldição que me mandariam para o inferno, definitivamente. E eu não me via resistindo por muito tempo.

 Anônimo

Entrei na primeira porta que encontrei para fugir de Tommy porque seu olhar preocupado se arrastando atrás de mim me deixou ainda mais confuso e inquieto somente para descobrir que havia entrado no banheiro feminino sem me dar conta do que fazia. Por Deus, em poucos minutos aquela garota arrasou com a minha sanidade ao ponto de eu nem mesmo olhar por onde andei. Eu sinceramente não queria descobrir do que mais ela era capaz. Mas ia, não ia? Eu ia descobrir porque não conseguia parar de pensar nela.

Minha maldição.

Em um simples incidente armado por nossos destinos com um péssimo gosto para brincadeiras a filha da puta conseguiu destruir boa parte das minhas barreiras me fazendo ser solidário e ao mesmo tempo me enfurecendo de uma maneira mais profunda e cruel do eu imaginei que conseguiria. Me deixou mais confuso, assustado e encantado do que qualquer outra pessoa já conseguiu. Ela simplesmente fodeu com a minha cabeça e não precisou dizer sem nem mesmo uma única palavra para que isso acontecesse.

Minha maldição.

Em vez de sair e ir para a aula como deveria ter feito me peguei caminhando de um lado para o outro dentro do banheiro enquanto me martirizava por não ter descido aquelas malditas escadas mais uma vez e ajudado a garota a entrar no prédio pensando em que tipo de babaca eu havia me tornado. Cheguei à conclusão que era do tipo de saia andando e deixava uma pobre garota indefesa sentada em uma cadeira de rodas me olhando partir, não que tenha me parecido realmente indefesa quando me socou. Mas os fatos eram esses e eu ainda era um cretino que negou ajuda a alguém necessitado.

Eu não conseguia parar de sentir pena dela, porra. Porque, porque eu não conseguia parar? Eu preferiria ter continuado a sentir repulsa ou raiva, quem sabe rancor? Tanto faz! Podia ser qualquer merda que me impedisse de chegar perto demais. Mas como poderia me ressentir de alguém que parecia infinitamente mais machucada do que eu? Ela não era o monstro que eu havia pintado nas minhas memorias era apenas mais uma vítima do destino e depois de descobrir isso o que permaneceu foi apenas a pena e isso fodia com a minha consciência porque eu não sabia lidar com um Rafael penalizado e benevolente.

Isso nunca tinha acontecido antes.

Pela primeira vez eu estava sentindo alguma coisa, e pela pessoa errada.

Eu queria entender o que havia acontecido para que tivesse parado naquela cadeira de rodas e acima de tudo porque se tornou aquele amontoado de escombros. Eu sabia que Aurora mudou aos poucos e significativamente depois que as agressões que sofreu na infância começaram, mas nada se comparou com aquilo. Todas as suas características que faziam dela alguém única desapareceram completamente dando lugar a um assombroso vazio. Um vazio muito parecido com o meu.

Respirei fundo algumas vezes e parei de andar me segurando na pia para depois me obrigar a soltar. Eu queria continuar agarrado a sua superfície ou a qualquer outra coisa que me impedisse de voltar para ela, mas então me surgiu uma ideia, não era boa, mas foi o melhor em que consegui pensar antes que batesse a cabeça em uma das paredes para fazê-la desaparecer.

Tirei Tristan de sua cadeira com um puxão interrompendo sua conversa com uma garota qualquer que me pareceu muito promissora se eu fossemos considerar as risadinhas e olhares cheio de cílios batendo. Pouco me importei. Eu só me importava com a menina que ainda permanecia no jardim, sozinha. Ela era a única coisa em que eu conseguia pensar. Seus olhos acuados e a dor dentro deles e no quanto era perfeita com todas as suas imperfeições... Merda!

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!