Capítulo 32 - Lenore

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Lenore

    Era incrível como cada um dos detalhes do Inferno ainda eram iguais mesmo depois de dez anos. Clima abafado e denso. Pessoas curiosas me seguindo com os olhos. Um aroma de tristeza, medo e saudade impregnados no ar. Nada havia mudado. Bem-vindo ao submundo,isso era o que a maldita placa deveria dizer porque não haviam segundas chance sem Broken Forest e eu sabia disso por experiência própria.

Vulnerável e sozinha, minha!

Não pude me controlar e os segui a distância até a casa do homem que destruiu meu futuro e minha mente já deteriorada quando arrasou com meu coração e me surpreendi quando constatei que aquele monstro inescrupuloso não havia perdido tempo em fazer sarar suas feridas ao montar uma nova família sem ela, não deveria sentir tanto a sua falta assim, não se era capaz de continuar a viver sem se desmanchar de saudades suas. Porque por minha filha eu me desmancho, centímetro por centímetro.

Por minha menininha eu me desfaço e me remonto, por minha menininha eu sou capaz de qualquer coisa. Isso inclui me arriscar pisando dentro do chão fumegante do Inferno novamente mesmo que esse lugar me roube o pouco de sanidade que me resta a cada segundo que passo em seu interior. Tem lembranças insistentes e tenebrosas se espreitando em cada um dos cantos por onde passo e não importa o quanto eu tente fugir porque todas elas me alcançam. Não suporto revivê-las, me alucina.

Preciso desesperadamente me concentrar no meu amanhecer de cada manhã para não dar meia volta e sair em disparada para bem longe das recordações que pulam na frente no meu carro e estendem suas mãos em minha direção como se fossem as mãos de uma criança morta.

— São as mãos daquela criança indefesa... — Sussurram as vozes que nunca se calam fazendo com que eu solte o volante e tape meus ouvidos para não lhes escutar mais. Mas eu ainda as escuto, sussurrando, me culpando, me punindo. Infelizmente não era permitido fugir de algo que está dentro de mim e não ao meu redor.

Minha cabeça era com certeza um péssimo lugar para se estar.

— Dentro dessa cidade as mãos dela te agarram, Lenore. — Gritam. Riem. Debocham.

— PAREM! — Imploro. — Se vocês não pararem por bem eu as farei parar. — afirmo pensando na gilete que guardei em minha bolsa em sua lamina afiada e em seu poder de me trazer paz mesmo que por poucos momentos enquanto o sangue pinga.

Minha loucura me abandona quando eu as vejo sair pela porta de entrada para olharem para minha menininha com interesse, repulsa e pena. Ele tinha mulher e filha, quem diria? Talvez eu roubasse essa menina também, quem sabe? Ele merecia, merecia que eu lhe roubasse tudo o que amava, merecia que eu o punisse! Elas eram bonitas e pareciam felizes, não eram nós e por isso eu as odiei, porque ele nunca nos quis.

Depois de me certificar que minha menininha ficaria em sua casa fui embora mesmo desejando ficar. Eu tinha necessidade de me acomodar em algum lugar para planejar o que faria em seguida com prudência. Fui obrigada a abandonar meu carro em um acesso escondido na rodovia longe de olhares e embaixo dos galhos de uma árvore que o esconderiam. Eu não podia me arriscar deixando-o estacionado dentro da cidade porque qualquer novidade por mais efêmera que fosse seria uma justificativa para especulações e eu teria que ser cuidadosa se quisesse continuar no anonimato.

Caminhei por uma hora para encontrar à cachoeira e mais alguns minutos para conseguir escalar as pedras íngremes para chegar ao topo torcendo para que meu refúgio ainda estivesse intacto. Assim que piso sobre a planície novamente e limpo minhas roupas com as mãos a pequena cabana reluz alguns metros à frente. Parece mais abandonada e decadente do que eu me recordava e mesmo assim mais uma vez será o esconderijo perfeito.

Enquanto seus pés não tocarem o chão - Aurora & RafaelLeia esta história GRATUITAMENTE!